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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007 - 10:00
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"Viver de arte é difícil, não impossível", diz Serrano

Viver de arte no Brasil não é uma das tarefas mais fáceis. Em Porto Feliz, então, nem se fala. O artista plástico e professor de educação artística José Avelino Serrano, 46 anos, desafia todas essas barreiras com um trabalho abnegado. Morador da cidade há 20 anos, Serrano ganhou o respeito de colegas depois de tomar à frente de projetos em prol da educação. Nem todos foram adiante, mas deixaram resultados e a lição de dedicação e perseverança.

Nesta entrevista, concedida à repórter Juliana Machado, Serrano fala sobre sua carreira de artista, professor e dos projetos que desenvolveu na cidade. Fala também sobre sua visão da educação e, claro, da política da cidade. E ainda deixa um recado: “Uma obra- prima se faz com 1% de inspiração e 99% de transpiração. Para a cidade se desenvolver é preciso arregaçar as mangas e ir para a luta”.

Como surgiu sua paixão pelo artesanato?

Desde criança já tinha facilidade com desenho. Aos 15 anos, me dediquei mais à técnica e, aos 21, logo após meu casamento, comecei a praticar pintura em tela e escultura em cerâmica. Tudo como autodidata. E não parei mais.

Quais tipos de artesanatos você faz?

Em razão da minha profissão e das atividades que me propus a executar, acabei me tornado um pesquisador de técnicas. Hoje executo trabalhos tanto em técnicas mais apuradas, como desenho artístico, pintura em tela, escultura em cerâmica, madeira, pedra, concreto armado, fibra de vidro metal e gesso, como em artesanatos comuns, do tipo miniaturas em madeira, biscuit, decopagem, cestaria em jornal, vela, embalagem etc.

Você acredita que em Porto Feliz é possível sobreviver de artesanato?

Um artesão depende de clientes que comprem seus trabalhos. Existem basicamente dois tipos de clientes: os que residem na cidade e os turistas. Infelizmente, os artesões portofelicenses não contam com um número expressivo de clientes em nenhuma destas vertentes. Por falta de empregos, a população acaba consumindo muito pouco desta produção. Quanto aos turistas, este é um setor de pouca expressão. Desta forma, fica muito difícil depender exclusivamente desta renda.


Quais as maiores dificuldades que você enfrentou para comercializar suas obras?

A maior parte da minha produção sempre foi vendida fora da cidade. Aqui em Porto Feliz, além do fator clientela, como já citei, poderia haver uma melhor relação entre o poder público e os artesões, que deveriam ser vistos como parceiros e não como simples comerciantes. Em vez de cobrar taxas para comercialização e exposição desses produtos, ou tomar uma postura indiferente, os órgãos públicos deveriam tratar esta atividade de maneira diferenciada, por meio de subsídios e capacitando os artesões e com propostas de melhora no acabamento e apresentação dos produtos. Também deveria haver um atendimento ao público e ao turista, gestão do negócio e, quem sabe, possíveis exportações. O Sebrae oferece estas capacitações e assessora a vários grupos de artesões em todo o Brasil.

Qual o projeto que você desenvolvia na Capoava?

Por mio do Programa Escola da Família, abríamos a escola todos os sábados e domingos para atendimento a comunidade, oferecendo-lhes atividades na área de esporte, saúde, cultura e qualificação profissional. Neste projeto, a comunidade se apropria do espaço, passando a se sentir responsável por ele, conservando-o. Dentre esses participantes, convidamos os mais comprometidos a formar e participar de um grupo comunitário, (O Game Superação). Com esses grupos fazíamos reuniões semanais para discutir e praticar cidadania. Esse grupo chegou a ter 28 participantes. Um dos maiores da Diretoria de Ensino.

O que se pretendia implantar na Capoava, tanto na área educacional, como na cultural?

O grupo comunitário que formamos na Capoava, através de eleições, já contava com presidente e diretores de esporte, cultura e finanças. Em três meses, o grupo já dispunha de um caixa com mais de 500 reais, arrecadados com eventos organizados por seus participantes.A intenção era fazer daquela vila, de arquitetura centenária e histórica, um pólo cultural. Iríamos capacitar os interessados na produção de artesanato, específico do local, treinar monitores para receber e acompanhar turistas, através de passeios a cavalo, charrete ou caminhadas, transmitindo-lhes todo conteúdo histórico do local.

Ele continua sendo desenvolvido?

Infelizmente, devido ao pouco número de alunos que cursavam o ensino médio, o estado encerrou suas atividades no local, conseqüentemente, encerraram também as atividades da Escola da Família. Tentamos de várias maneiras, tanto na União São Paulo como na Prefeitura, uma forma de parceria para continuarmos com o projeto. Porém, após seis meses do fechamento da escola o máximo que conseguimos foi a reinstalação da pré-escola no local.

Por que acabou? Faltou apoio da prefeitura?

Como já disse, a comunidade insistiu em uma parceria. Mas qualquer parceria, por mais simples que seja, já é uma coisa complicada. Imagine esta, que envolve imóvel particular, interesses diversos e que necessitaria de um empenho triplicado. Enquanto o professor Causin estava ligado à diretoria de Cultura, ainda tínhamos algumas esperanças, mas depois de seu desligamento, a situação se mostrou praticamente impossível. Agora nos resta apenas apreciar a decomposição deste patrimônio.

Na sua opinião, os monumentos históricos da cidade estão sendo bem conservados?

Se considerarmos os monumentos como patrimônio histórico e cultural, não podemos achar que limpeza, manutenção e vigilância destes elementos sejam suficientes como forma de conservação. Quando nos referimos a patrimônio, não estamos falando apenas do aspecto físico, mas de uma forma mais abrangente. Ele representa a identidade local. Se for feito um levantamento mais amplo e minucioso, perceberemos que estamos perdendo muito de nossa história e identidade. Por falta de informação, em uma seqüência desastrosa, a comunidade não se reconhece mais naqueles elementos, ficam indiferentes e depois esquecem. Tais como, Conjunto Arquitetônico da Capoava, Pontilhão de Ferro, Engenho D`água, Conceição, Sobradinho ...

O que precisa ser feito para que os patrimônios não fiquem degradados?

Além da manutenção física, deveria ser feito um trabalho de pesquisa, uma publicação e divulgação constante desses elementos à comunidade, inserindo na população, um sentimento de identidade coletiva e conseqüentemente a valorização e conservação destes patrimônios.

Porto Feliz tem potencial para ser estância turística?

Sem dúvida. Porto Feliz tem um patrimônio histórico muito grande, e um monumento natural interessante. Mas daí a se falar em potencial turístico, já é outra coisa. Não acredito que uma cidade sem uma economia estável possa, de repente, se transformar em pólo turístico e viver só dele. Quem pensa em atrair turistas para que esses estimulem o comércio, artesanato e a geração de renda, definitivamente está pensando de trás para frente. Porto Feliz deveria começar a pensar em uma economia mista, entre indústria e turismo. No momento, somente indústrias e empregos podem dar à cidade a possibilidade de se estruturar para a partir daí começar a desenvolver um projeto turístico eficiente.

Além do artesanato, você tem outras profissões? Quais?

Minha primeira formação foi a área técnica. Fiz desenho mecânico, fundição e moldagem. Ofícios que me auxiliaram muito a elaboração e desenvolvimento de esculturas. Também trabalhei muito tempo no comércio. Aos 34 anos, me formei como professor de Educação Artística com habilitação em Artes Plásticas.

Como você enxerga a educação em Porto Feliz?

Na minha opinião é como um campo minado. Quando se fala em educação, não dá para avaliar como uma coisa localizada. O modelo segue o padrão estadual, onde, o mais importante são os números, a quantidade de alunos que se conseguem colocar em uma sala de aula, o índice de aprovação, independentemente do rendimento do aluno, baixo índice de evasão escolar e analfabetismo, entre tantas outras preocupações do gênero. Aquilo que seria o “politicamente correto” e que, sem dúvida, promove uma formação questionável.

O que você pensa sobre o método NAME-COC que é utilizado pela rede municipal?

Nem melhor, nem pior. Muda um pouco o método, a estratégia, mas o modelo geral é o mesmo e as preocupações são as mesmas. Repito, minha opinião.

Como você vê a administração do prefeito Maffei?

Porto feliz é uma cidade que há muito tempo sofre pela falta de emprego. A cada mudança de governo, renovamos nossas esperanças em relação a isto, principalmente neste momento, cujo partido tem um perfil trabalhista. Estava confiante em visualizar mudanças significativas. Infelizmente, não consigo perceber tal evolução. Essa é uma cobrança que faço ao nosso prefeito.

Você está no programa escola da família desde o começo. Qual a sua avaliação sobre este projeto do governo estadual?

Esse programa já existe há três anos, reflexo dos bons resultados que vem apresentando. O projeto foi muito bem elaborado, e conta com as parcerias do Instituto Ayrton Senna e a Unesco. Cada unidade escolar atende em média 300 pessoas por final de semana. Já promovemos eventos que atendeu mais de 1100 pessoas em um único dia. Em 2006, recebemos centenas de depoimentos, relatando os benefícios percebidos por pessoas que freqüentaram as escolas. Mais que um espaço de esporte e lazer, este é um trabalho de cidadania que vem apresentando excelentes resultados.

Qual a sua função no projeto escola da família?

No primeiro ano, fiquei responsável pela unidade escolar da Capoava. Nos últimos dois anos fiz parte da equipe de fortalecimento. Minha função era montar oficias de artesanato às diversas escolas do município e promover oficinas de capacitação aos universitários que trabalham o projeto em troca da bolsa de estudo na faculdade. A intenção era transformar esses universitários em agentes multiplicadores deste conhecimento perante a comunidade.

Quantos alunos já foram capacitados por você durante as oficinas realizadas

no projeto?

Não tenho um número exato, mas centenas de pessoas freqüentaram assiduamente as oficinas que desenvolvi. É gratificante observar que muitas destas pessoas, hoje, produzem artesanato para vender e com isto estão melhorando sua renda mensal.

Você acredita que os portofelicenses têm suporte nas áreas culturais?

Se pararmos para pensar em termos de eventos culturais, muito pouco se faz. Quando uma pessoa, ou um grupo de pessoas consegue fazer algo interessante, por exemplo, uma peça de teatro, uma apresentação musical ou exposição de artes, por melhor que seja o resultado, sempre acaba tendo um caráter amador. A falta de apoio e incentivos culturas, patrocínios e tantos outros recursos necessários para o desenvolvimento do projeto acabam prejudicando o produto final. Os envolvidos, para suprir estas necessidades, acabam se sobrecarregando de trabalho e isso acaba comprometendo a obra.

O que falta para Porto Feliz crescer tanto nas questões industriais como nas turísticas?

Tudo na vida depende de postura e planejamento. Só querer é muito pouco. Em arte, se diz que uma obra-prima se faz com 1% de inspiração e 99% de transpiração. Quem sabe, se com equipes montadas exclusivamente para estes fins e com projetos bem elaborados, Porto Feliz poderá chegar ao desenvolvimento tão desejado.

Fonte:  Revista Viu!

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