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Quinta-feira, 03 de Abril de 2008 - 10:46
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Uma sacada de cidadania

O esporte pode ser o instrumento para tirar crianças e jovens da ociosidade, das ruas e ajudar na formação de cidadãos conscientes, responsáveis? O projeto "Voleibol Cidadania", criado pelo professor de educação física, Antonio Carlos de Campos, conhecido como professor Carlinhos do vôlei, prova que sim. A preocupação com o futuro das meninas que permaneciam ociosas quando não estavam em aula, levou Carlinhos a criar o projeto em 2004. Desde então se dedica a ensinar às crianças e adolescentes que passam pelo projeto, muito mais do que as regras dessa modalidade esportiva: ensina-as a serem cidadãs responsáveis e conscientes de seus direitos e deveres. "O esporte tem o poder de resgatar e incluir as pessoas, além de trazer diversos benefícios para a saúde, para o crescimento pessoal e profissional", diz ele. Em entrevista à Viu!, o professor Carlinhos fala sobre como surgiu o projeto, as dificuldades que enfrenta para mantê-lo, as conquistas e da falta que um Ginásio de Esportes faz para a cidade. Reclama também do pouco apoio do poder público nessa importante empreitada pela cidadania.

Como surgiu a paixão pelo vôlei?
Formei-me em 1989 pela Faculdade de Educação Física de Sorocaba (Fefiso) e, no ano seguinte, assumi aulas de reinamento de vôlei na escola Coronel Eugênio. Apesar da formação na área, senti necessidade em aprimorar o conhecimento para ncentivar as 17 alunas que treinava. Diante disso, surgiu a idéia de dividir o que aprendi e comecei a treinar outro rupo, mas no Ginásio de Esportes.

E o projeto?
Convivendo com os alunos nas Escolas Estaduais, percebi que as crianças e adolescentes tinham muito tempo livre, sem tividade alguma, principalmente as meninas. Sabia que através do esporte é possível vislumbrar novos horizontes, elhorar a expectativa de vida dessas meninas, então em 2004, fundei legalmente o Projeto Voleibol Cidadão.

Qual é o objetivo?
Além de ensinar essa modalidade e incentivar a prática de um esporte saudável, é benéfico para a saúde dessas jovens; ambém tento mostrar a elas a importância do trabalho em equipe, disciplina, bom comportamento e solidariedade. Tento passar o significado em serem cidadãs conscientes, de seus direitos e deveres. O principal objetivo não é formar grandes atletas, mas, resgatar e incluir essas meninas na sociedade, não importando se são magras, fofinhas, altas ou baixas, jovens ou adultas; o que conta é que fazem parte de um grupo e que são bem-vindas e queridas naquele meio.


O esporte é a melhor forma de resgatar e incluir?
É. Além disso, traz benefícios como crescimento físico, amadurecimento emocional; formação moral (aprender a jogar limpo”, de acordo com as regras e a ética esportiva); socialização (aprender a fazer amigos e a jogar em equipe, de forma cooperativa) e desenvolvimento da inteligência (capacidade de solucionar problemas e tomar decisões sobre a jogada mais adequada). Também auxilia na formação da personalidade (aprender a valorizar a si mesmo, descobrindo suas potencialidades e talentos) e influencia as crianças a aprenderem a gostar de exercícios, de forma a adotarem, quando adultos, um estilo de vida ativo.

Quais as dificuldades que você enfrentou?
A maior dificuldade é fazer com que as pessoas acreditem na proposta, principalmente o Poder Público. Muita gente pensa que porque não tem um retorno financeiro, não é bom, mas isso não é verdade. Os pais dessas jovens percebem a udança
no comportamento, se tornam mais conscientes, responsáveis e mais disciplinadas. Melhoram o desempenho em aula, nas notas. Esse retorno é muito melhor que o financeiro, pois essas meninas crescem pessoalmente e se tornam adultos mlhores.

O projeto faz a diferença?
Eu acredito que o trabalho que desenvolvo é uma ferramenta para isso. Não sou apenas mais um, mas alguém que dá o melhor de si por algo que acredita. Gosto de pensar que estou deixando a minha marca, fazendo algo que amo e honrando meu diploma, pois o professor faz o juramento de que dividirá seu conhecimento com seus alunos e tento fazer isso.

Quantas meninas estão atualmente no projeto?
Cerca de 70, divididas por subgrupos, conforme a idade que varia dos oito aos 21 anos.

Há uma regra para integrar o projeto?
O primeiro passo é estar matriculada e freqüentando a escola. Durante os treinos, são proibidos palavrões e as palavras como, por favor, obrigado, com licença, são sempre exigidas, afinal é preciso ter respeito para ter um grupo e a interação seja maior.

Quantos tipos de sub-grupos você treina?
Treino o Mini (nascidas entre 1997/98); Iniciação (1995/96); Prémirim (1994); Mirim (1993), Infanto (1991/92), Sub 21 (16 a 21 anos) e o último grupo é o livre (maiores de 21 anos), que jogam por diversão. Os treinos acontecem duas vezes por semana, às quartas e sábado no colégio Bandeirantes Universitário.

Quais as principais conquistas?
Já ganhamos diversos campeonatos, como: Jogos Comunitários da ACM (Sorocaba) com o time Mirim. As meninas jogaram contra o time do Sérgio Negrão, que representava Sorocaba. Outro campeonato que ganhamos duas vezes foi o Aberto da Liga, no qual concorrem 19 cidades da região. O time Mirim e o Infanto trouxeram o troféu de campeão e vicecampeão para Porto Feliz.

O time representa Porto Feliz oficialmente?
Depende. Em 2004 representamos a cidade nos Jogos Regionais. De 2005 em diante, só quando somos convidados pela Prefeitura. Mas continuamos divulgando o nome da cidade nos lugares em que jogamos.

Vocês recebem apoio de alguma empresa/patrocinador?
Somos uma entidade sem fins lucrativos, mas temos a colaboração de alguns pais e alguns estabelecimentos comerciais, pois temos despesas com transportes para levar as meninas para casa após o treino, alimentação e pagamento dos árbitros; e sem Ginásio Municipal, todos jogos são feitos em Boituva, aumentando ainda mais as despesas.

O que achou da venda do Ginásio Municipal?
Alegar que ficava longe não era motivo suficiente para vender. Poderiam ter vendido, mas entregue o prédio quando o outro estivesse pronto, pois vários times treinavam lá e seria mais justo. Quando percebi que a venda era irreversível, procurei a direção do colégio Porto dos Bandeirantes Universitário e apresentei o projeto. Eles aprovaram. Ainda bem que conseguimos outro lugar, senão ficaria difícil dar continuidade ao projeto.

Então o ginásio faz falta?
Sim, não só para nossa equipe, mas para todas. Como Porto Feliz não tem mais um Ginásio, todas as nossas partidas estão sendo realizadas em Boituva. E precisamos de condução para ir até o local.

Que tipo de apoio a Prefeitura dá ao projeto?
No final do ano, eles nos deram cinco bolas de vôlei e dois postes emprestados. No início do ano, procurei a diretoria de Esportes e eles me disseram que para eu levar a programação dos jogos, que eles vão ceder o tranporte. Já procurei o prefeito duas vezes e ele ficou de agendar uma reunião.

Nas administrações anteriores como era?
Recebíamos transporte para buscar e levar as meninas até em casa após o treino, material esportivo, lanches e transporte para jogos em outras cidades.

Como vê os investimentos do município no vôlei?
Acho que falta um apoio mais efetivo. Por exemplo: no projeto Voleibol Cidadão, se você estende essa idéia para comunidades como as Vilas Bandeirante e Angélica e o Jardim Vante, onde têm muitas crianças e adolescentes, é uma forma de tirar da rua e desenvolver a potencialidade dessas pessoas por meio do esporte, ou seja, do vôlei. Eu mostrei duas vezes esse tipo de projeto, com o intuito de criar um núcleo na escola do Pádua e na Vilma, mas, talvez não tenha conversado com a pessoa certa.

Qual sua expectativa para o projeto?
É a de que o Poder público olhe com um pouco de mais carinho para nosso trabalho, valorize o que está sendo feito para melhorar a qualidade de vida dessas meninas e divulgar o nome da cidade na área esportiva; Também tenho vontade de montar núcleos na Vilma Fernandes (Vante) e Antonio de Pádua (Vila Angélica).

O que poderia ser feito para melhorar e ampliar o projeto?
Conscientização das pessoas com maior poder aquisitivo sobre a importância em investir/patrocinar projetos educacionais vinculados a crianças e adolescentes e também conscientização com relação à prática de esportes, seja vôlei, basquete, futebol, natação. Pretendo ampliar o projeto este ano, incluindo uma equipe masculina com idade entre 8 e 21 anos. Para isso precisamos de apoio tanto do poder público, quanto dos familiares e da sociedade em geral.

Quantas meninas já passaram pelo projeto?
Cerca de 300 meninas.

Foto: Paulo Henrique Baldini

Fonte:  Revista Viu!

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