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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011 - 09:46
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Uma mulher a toda prova

Tereza Polaz conta como fez para conciliar o trabalho e a família, superar as dificuldades com a perda do marido e consolidar a empresa no município

Há mais de duas décadas, o transporte público na cidade é administrado por uma única empresa: a Polaztur. Com o nome de Jumaíza, a frota inicial contava com cinco ônibus, cinco motoristas e mecânicos e eletricistas. Conforme a necessidade de novos itinerários e demanda crescente por transporte, o negócio foi se expandindo e se transformando no que é hoje.
Com uma história de vida cheia de altos e baixos, Terezinha Maria Benedetti Polaz é uma das sócias da empresa Polaztur. Nascida no interior de São Paulo, ela saiu de Boituva e veio residir em Porto Feliz com os pais e irmãos quando tinha três anos de idade. Na infância, Tereza morou no bairro Gramado e, aos 14 anos, começou a namorar Carlos Polaz, com quem se casou em 1981 e teve duas filhas: Carla e Karen.
Nesta entrevista, Tereza conta como foi perder o marido, criar as duas filhas, consolidar o nome da empresa no município e superar todas as dificuldades nos últimos 18 anos da sua vida.

Como foi a sua infância?
Tive uma infância feliz. Nós morávamos no sítio e meu pai cultivava vários tipos de vegetais, em particular cebolas, para manter os 12 filhos. Todos nós ajudávamos com a agricultura da família. Recordo que eu, meus irmãos e meus pais nos reuníamos aos domingos para almoçar, todos sentados ao redor de uma grande mesa que havia na cozinha, assim como jantávamos todos os dias juntos. Tínhamos essa união familiar bastante forte. O Natal era uma data especial. Uma semana antes já começam os preparativos e nós ficávamos ansiosos e eufóricos, contando os dias para o almoço natalino. Minha mãe preparava os assados e alguns doces no forno de barro. Sinto saudades e é impossível esquecer aqueles momentos.

E quando veio morar em Porto Feliz?
Eu nasci no Sítio Santa Cruz, no município de Boituva, e vim para Porto Feliz aos 3 anos. Quando tinha 10, 11 anos, ajudava meu pai na agricultura e, também, auxiliava minha mãe nos afazeres domésticos. Aos 15 anos, vim morar na cidade para concluir o ensino fundamental e médio. Comecei a trabalhar na cidade aos 17 anos e meu primeiro emprego foi na loja Jovel, antiga casa de presentes.

Como conheceu o Carlos?
Morávamos em sítios vizinhos e o conhecia desde a infância. Um fato curioso é que ele vinha de charrete com seu avô, Pedro Polaz, para o nosso sítio e, enquanto o Pedro entrava em casa para conversar com meu pai, o Carlos, que era bem loirinho na época, ia pegar frutas no pomar. E eu ficava muito brava por causa disso. Eu falava: ”não pegue!”, mas ele nem respondia e continuava pegando. Ah, eles também sempre traziam dois cachorrinhos junto com eles na charrete. Aos 14 anos, comecei a namorar o Carlos, que era um ano mais velho que eu. Naquela época, o bairro Tabarro, vizinho ao que morávamos, era bem agitado, muito diferente de hoje em dia. Quando possível, eu e o Carlos íamos a torneios de futebol e corridas de charrete. Era muito divertido!

Depois de casar, quando vieram para a cidade?
Eu já morava na cidade e o Carlos ainda morava no sítio. Quando decidimos nos casar, construímos uma casa aqui, mas o Carlos continuava trabalhando com a lavoura de cana-de-açúcar no sítio. Eu ficava em casa trabalhando com crochet e tricô e estava em vias de iniciar uma pequena confecção de roupas. Essas eram as nossas únicas fontes de renda e a Polaztur ainda não existia.

As filhas vieram em qual época?
A minha primeira filha, Carla, nasceu em 1983. Já a Karen nasceu em março de 1986. Em outubro do mesmo ano, compramos a empresa que hoje é a Polaztur.

E como surgiu a Polaztur?
Em 1986, o dinheiro que tínhamos não era suficiente para comprarmos a empresa, então até a casa na qual morávamos teve que ser vendida para poder contribuir. O antigo nome da empresa era Jumaíza e possuía uma frota de apenas cinco ônibus: dois rodoviários, duas circulares que percorriam o bairro Bambu, Popular e Vila América e um ônibus reserva. O primeiro ônibus rodoviário foi vendido com o tempo, mas, como o ônibus já foi vendido e revendido, infelizmente não temos o contato do atual proprietário. Eu ainda o procuro para tentar adquirir o ônibus de volta, como uma forma de recordação mesmo.

De quem foi a ideia de comprar a empresa?
Foi do Carlos. Provavelmente, ele deve ter conversado com o pai antes de fazer o negócio. Antes de ele falecer, a gente tinha a Polaztur e a Auto-Viação Polaz, alguns hectares de plantação de cana e o início de uma pequena agência de turismo em Campinas. Depois que ele faleceu, por falta de tempo, fechamos a agência em Campinas e, aos poucos, também encerramos as atividades com a plantação de cana.

O logotipo da empresa, o que significa? Quem o escolheu?
Quando vi aquele risco verde desenhado no ônibus, perguntei ao Carlos o que significava. Ele me respondeu que aquilo era uma folha da cana e essa folha se dobrava. Ele queria dizer que aquilo era uma transição na vida dele, de agricultor para empresário. O dinheiro da cana havia sido imprescindível para a compra da empresa e, por isso, o Carlos quis colocar como símbolo da Polaz uma folha de cana estilizada.

Como o Carlos faleceu?
Foi um acidente. Era manhã do dia 10 de maio de 1993, ele estava indo para Itu e, no km 127 da rodovia Marechal Rondon, um caminhão, que vinha no sentido contrário, fez uma ultrapassagem irresponsável e acabou se chocando frontalmente com o carro do meu marido. Naquele dia, havia forte neblina, não se enxergava nada. Após um tempo, conversei com o filho do dono da empresa responsável pelo caminhão, uma transportadora de laticínios, e ele me contou que, naquela manhã, o motorista que deveria fazer aquele transporte não havia comparecido e, portanto, colocaram um substituto, com pouca experiência no trânsito. Na época, a Karen tinha sete anos e a Carla tinha dez.

Quem assumiu a empresa após o acidente?
Continuei lá. Os irmãos do Carlos, Geraldo e Malu, são os outros dois sócios da empresa. Pensei em dar continuidade ao sonho do meu marido e resolvi arregaçar as mangas. Sempre fomos uma família unida e isso foi muito importante para chegarmos onde estamos hoje.

O que mudou dentro da empresa?
Mudou muita coisa. O Carlos era o administrador, e tanto eu, quanto a Malu, o Geraldo e o meu sogro ajudávamos. Ainda era uma pequena empresa e não tínhamos sequer faxineira. Fazíamos a limpeza dos ônibus, preparávamos os lanches que a empresa oferecia entre outras coisas. Com o passar do tempo e, mesmo sem o Carlos, conseguimos ir crescendo e organizando melhor cada setor da Polaz, que, atualmente, é uma empresa estruturada.

Em algum momento você achou que não fosse conseguir?
Nunca. Sou muito positiva. Pensei em fazer, em continuar com tudo e foi o que fiz, mesmo com todas as dificuldades.

Como foi essa mudança, cuidar das filhas, da empresa e você?
Na época em que o Carlos faleceu, assim como em outras perdas que tive na família, passei a pensar que essas pessoas já não estariam entre nós, estariam em outro plano. A partir daí, eu sabia que precisava criar minhas filhas, porque essa era minha responsabilidade e isso seria o meu objetivo. Também pensava em continuar trabalhando na Polaz, porque queria dar às minhas filhas melhores condições do que meus pais puderam me dar, principalmente estudo de qualidade.

Quais os valores que você quis passar a suas filhas?
Quis dar a elas os valores que recebi dos meus pais. Respeitar e ajudar ao próximo, não fazer aos outros o que elas não gostariam que fizessem a si mesmas. Eu queria que elas fossem pessoas do bem, para que elas pudessem contribuir para um mundo melhor, para que não fossem pessoas fúteis. Além dos estudos.

Teve algum medo?
Não.

Qual foi o papel da sua família nesse seu desempenho?
Sempre preferi não pedir favores e, na época, achei que a responsabilidade de sustentar e criar minhas filhas era só minha. Além disso, meus pais já estavam com uma idade avançada e já vinham doentes, tendo sido eu e meus irmãos a cuidarmos deles até o fim. Não pensei em mim, mas sim nas pessoas que estavam ao meu redor, que talvez estivessem precisando mais do que eu. Mesmo não sendo da minha família, também nunca vou me esquecer da ajuda que as professoras do colégio São José deram às minhas filhas, como a professora Lúcia, que vinha buscar a Karen em casa para levar às aulas. E, muito importante, foi a ajuda da minha funcionária doméstica, a Fia, que foi uma segunda mãe para as meninas.

Como você lida com a vaidade?
Como qualquer mulher, tenho minhas vaidades. Procuro ter uma alimentação saudável, fazer caminhadas e tento sempre estar bem comigo mesma.

E o que essas experiências trouxeram para você?
Muita coisa. Acho que antes eu via o mundo de forma mais ingênua. Hoje sou muito madura e segura no que eu faço, dou mais valor àqueles que estão ao meu redor. Observo as pessoas que se preocupam com futilidades e penso que estamos aqui de passagem. Nós somos um sopro. Por isso procuro curtir a minha família e estar sempre próxima às pessoas que eu realmente gosto.

Vendo a mulher que trabalha e cuida dos filhos, como você avalia esse espaço conquistado?
Mesmo com a liberdade e espaço que as mulheres conquistaram, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Existem, sim, muitos preconceitos e desigualdades de gênero, ainda dependendo de nós, mães, o cuidado com os filhos. Se não é a mãe que exerce esse papel dentro de casa, pois tem que trabalhar fora, há outras mulheres que estão tomando conta de seus filhos e de sua casa, como as babás e empregadas domésticas. Temos que procurar refletir melhor sobre o papel da mulher e do homem na organização familiar.

Como é o relacionamento com a Carla e a Karen?
As duas já são formadas e continuam estudando, mas moram fora de Porto Feliz. Sempre tivemos uma ligação muito forte de carinho, de amor, de respeito, de ajuda mútua, porque éramos nós três. Falo com as minhas filhas todos os dias, seja pelo Skype ou pelo telefone. Às vezes, eu pergunto se estão comendo direito, se estão escovando os dentes certinho, coisas de mãe. Mesmo longe, eu me preocupo.

As meninas pensam em continuar com a empresa?
Elas estudaram coisas diferentes, mas se um dia resolverem voltar para Porto Feliz, a empresa estará lá para elas. A Carla se formou em Biologia e agora faz doutorado na área de Engenharia Ambiental. A Karen é socióloga e faz mestrado em Sociologia da Educação.

Como é o seu relacionamento com os funcionários?
Temos um bom relacionamento, sobretudo de respeito. Quando chego à empresa e vejo os funcionários, penso que eles fazem parte da minha família. Somos uma equipe. Penso, também, que se não fosse esse apoio que recebi e recebo até hoje deles, talvez eu não conseguisse chegar onde cheguei. Eles foram fundamentais.

Você acha que conquistou tudo que planejou?
Sim, conquistei tudo e mais alguma coisa. Hoje isso me faz feliz.

O que diria as mulheres?
O dia internacional da mulher, que deveria ser uma data especial, é mais um protesto do que uma comemoração. Em um mundo ainda machista em que vivemos, temos, sim, que ainda lutar contra a desigualdade de gênero, seja contra os menores salários, seja contra a violência física, dos abusos sexuais, ou contra a violência simbólica, mas não menos devastadora, que tanto nos aborrecem, magoam, entristecem, que colocam nossas capacidades a toda prova. Sim, somos sensíveis, mas fortes, organizadas e determinadas. Somos esteio de nossos lares, suportamos as dores e desavenças com firmeza, mas também recebemos as alegrias como se recebe uma flor, com um belo sorriso. Somos mães, que é uma das mais lindas dádivas de Deus. Somos dedicadas aos nossos filhos, pois somos seus anjos da guarda. Trabalhamos fora para o sustento da casa. Somos batalhadoras. Somos conciliadoras, mas também críticas quando se faz necessário. Somos inteligentes para observar o mundo à nossa volta quando algo não vai bem. Somos cobiçadas e desejadas, lindas de corpo e alma. Sim, somos mulheres!

Fonte:  Revista Viu!

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