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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2012 - 15:41
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Um médico idealizador

Sérgio Mangini Júnior, médico da Santa Casa de Misericórdia, fala sobre sua relação com a cidade, sobre a instituição, da carreira e do atendimento no hospital
Foto: Paulo Henrique Baldini / Revista Viu! Porto Feliz
Doutor Sérgio trabalha há cinco anos na Santa Casa e fala da estrutura do local e da cidade.
Doutor Sérgio trabalha há cinco anos na Santa Casa e fala da estrutura do local e da cidade.
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Doutor Sérgio trabalha há cinco anos na Santa Casa e fala da estrutura do local e da cidade.
Doutor Sérgio trabalha há cinco anos na Santa Casa e fala da estrutura do local e da cidade.

A medicina é um ramo que atrai muitas pessoas. Uns, a escolhem por dinheiro, outros, por amor. Atuando há aproximadamente cinco anos na Santa Casa de Misericórdia de Porto Feliz, Sérgio Mangini Júnior, 30 anos, natural de Sorocaba (SP), conta um pouco dos segredos da medicina e da área na qual atua.

Formado pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), Sérgio opera na Clínica Médica, Terapia Intensiva e Ultrassonografia, há seis anos. Nesta entrevista, o médico detalha quais são os cuidados que devem ser tomados com o paciente em diferentes situações, como trouxe o serviço de ultrassonografia para a Santa Casa, o que o hospital oferece e o que precisa para melhorar ainda mais. Confira!

Como foi convidado para trabalhar na Santa Casa?

Bom, antes de trabalhar em Porto Feliz, morava e trabalhava em Capão Bonito e fazia alguns plantões em Pilar do Sul. Em uma certa passagem de plantão, conheci um colega (Vanderlei Goes) que passou meu contato para o Dr. Daniel Horta, na época coordenador do Pronto-Socorro da Santa Casa de Porto Feliz e do Hospital Samaritano. O Daniel me ligou ofereceu os plantões e eu aceitei.

 

O que achou da cidade? E como é hoje?

Achei que assim como várias cidades do interior, Porto Feliz é uma cidade simpática, acolhedora. Que sabe guardar e valorizar seu patrimônio histórico-cultural. A igreja matriz em estilo barroco, o parque das monções, a estação das artes, dentre outros. Entretanto, logo que cheguei percebi algumas coisas que precisavam ser melhoradas. A cidade não tinha corpo de bombeiros, parte da Av. Dr. Antonio Pires de Almeida não era asfaltada, as calçadas da margem do ribeirão que corta a cidade não eram adequadas. Hoje a estrutura da cidade melhorou, porém acho que ainda há muito o que se fazer. O cidadão porto-felicense merece essas melhorias. Uma das melhorias na infraestrutura urbanística que deixo como sugestão para o próximo prefeito é a criação e adequação de um projeto arquitetônico urbano-paisagístico para a região da nascente na entrada da cidade. Melhorando assim a primeira visão de quem entra na cidade por esse local.

 

O que achou do povo porto-felicense?

Um povo que herdou da época das monções a garra e a coragem. Um povo simples, alegre e prestativo. Um povo que abraça os que de fora vêm, fazendo com que realmente sintam-se em um "Porto-Feliz".

 

Qual a sua relação com o povo de Porto Feliz atualmente?

É uma relação de amizade, respeito, atenção. Procuro dar o melhor de mim para as pessoas dessa cidade. Lógico que não agrado a todos, nem tenho essa pretensão.

 

Quais as principais funções que exerce na Santa Casa?

Em Porto Feliz, atuo na clínica médica e na ultrassonagrafia. Na primeira, minha função como médico é formular hipóteses diagnósticas com base na história clínica, exame físico e complementares e prescrever o tratamento adequado. A clínica médica é responsável pela saúde do adulto como um todo. Hoje, sou responsável pela enfermaria de clínica médica da Santa Casa, onde, junto com a doutora Denise Ribeiro, procuramos sempre e, de forma incansável, fornecer o melhor para os pacientes que estão internados sob nossos cuidados. Mesmo diante de algumas limitações que possamos encontrar, nunca ficamos satisfeitos em não tentar fornecer o melhor tratamento. Na enfermaria, devemos ter cuidados com o paciente da admissão até a alta hospitalar. Conversando, examinando, solicitando exames complementares, instituindo terapêutica e antevendo complicações. Na segunda, minha função como ultrassonografista, é auxiliar no diagnóstico. Seja do adulto, criança, gestante ou feto/embrião. Realizo exames de ultrasson nas cidades de Porto Feliz, Sorocaba e Itu. Além da enfermaria também atuo como plantonista do Pronto Socorro dessa instituição e tenho consultório na Clínica Carvalho.

 

Onde fez o curso de ultrassonografia?

Estudei em dois grandes centros de treinamento de ultrassonografia no estado de São Paulo: Escola de Ultrassonografia de Ribeirão Preto (EURP), com os professores Dr. Francisco Mauad e Dr. Adilson Ferreira, dentre outros; e no Centro de Treinamento em Ultrassonografia de São Paulo (CETRUS), com os professores Dr. Claudio Pires e Prof. Dr. Ayrton Roberto Pastore, dentre outros.

 

Como funciona esse trabalho?

Realizo exames de ultrasson, no Incor (Sorocaba), Itulab (Itu e Porto Feliz), e na Santa Casa (Porto Feliz). Na Santa Casa sou responsável pelos exames de ultrasson do Pronto Socorro, enfermaria de clínica médica, pediatria e ginecologia/obstetrícia.

 

Existe algum risco nessa área?

Os exames de ultrasson são praticamente isentos de riscos.

 

Como funciona o estudo das doenças em adultos?

Hoje, o conhecimento e, a ciência em todos seus campos, evolui com uma velocidade incrível. Surgem e descobrem-se novas doenças, novos métodos diagnósticos, terapêuticas inovadoras a cada segundo. Tem-se no mundo uma louca corrida por novas descobertas. Junto a isso, soma-se o fato de o conhecimento ser amplo e facilmente divulgado e propagado pelos meios de comunicação. Com isso, os médicos têm que estar em constante atualização, com uma fome incrível pelo saber. O médico, para ter conhecimento da saúde do adulto, como um todo, tem que ter o conhecimento da biologia, anatomia, fisiologia, bioquímica, patologia, histologia, entre outras matérias que fazem parte da graduação. O fato, é que o médico tem que ser um eterno estudante. Um incansável investigador do saber, um amante dos livros, dos artigos, dos tratados e consensos.

 

O que você acha da divisão emergencial que a Santa Casa criou para que fosse estabelecido um atendimento prioritário?

Hoje os serviços de Urgência e Emergência com demanda espontânea no Brasil tem tido um aumento em projeção geométrica no volume de atendimento. Muitas pessoas buscam nesses serviços a solução para seus problemas de saúde que poderiam ser resolvidos perfeitamente nas Unidades básicas de Atendimento (UBS). Enquanto um médico está atendendo um paciente com micose no braço, pode ter outro paciente que está tendo um infarto agudo do miocárdio e encontra-se esperando para ser atendido. O sistema de triagem de atendimento é uma forma de priorizar os casos que necessitem de atenção imediata, tentando identificar os pacientes com maior risco. Assim, o que vale não é a ordem de chegada, mas a gravidade do caso.

 

Qual o motivo da Santa Casa receber um atendimento de 9 mil pessoas por mês? Por que acha que as pessoas procuram mais a Santa Casa do que os postos de saúde?

Isso é multifatorial. Vai da educação da população em saúde, à política de gestão de saúde. Vivemos em um mundo cada vez mais imediatista, que busca respostas cada vez mais rápidas para seus problemas. Isso faz com que a população também queira respostas rápidas e não queira esperar. O que é mais fácil? Agendar uma consulta na UBS, para Deus sabe quando, ou ir direto ao Pronto-Socorro e ser atendido em menos de duas horas? Ir na UBS e o médico pedir um exame que só vai ser visto em um retorno ou ir no Pronto-Socorro, onde o exame sai em poucas horas e o médico já vê? Só que com essa postura, muitos se esquecem que para um bom diagnóstico e tratamento, há de se ter um vínculo com seu médico. O atendimento e a atenção a saúde do paciente tem que ter um traçado horizontal, de seguimento literal, e não vertical/pontual como é o atendimento do pronto-socorro, onde cada consulta é com um médico diferente. Hoje em Porto Feliz poderia ter um pronto atendimento, além do pronto-socorro. Com isso, melhoraria muito a logística; diluiria o atendimento em dois polos, melhorando a qualidade de atendimento. Deveria também aumentar a rede de atenção básica, encurtando o tempo de espera para consultas de rotina. Abrir espaço na agenda dos médicos que trabalham nos postos, para o atendimento de quadros agudos de saúde menos complexos. Façamos as contas: 9 mil atendimentos no OS por mês são 108 mil atendimentos no ano! Mais que o dobro da população. Isso sem contar os atendimentos realizados nos postos de saúde.

 

Qual a maior dificuldade que enfrentou até hoje?

Encaro as dificuldades que aparecem como um desafio a ser superado. Por isso, sempre as enfrento. A maior dificuldade? Creio que tenha sido a época em que o Hospital aqui de Porto Feliz entrou em greve, antes da intervenção municipal. Nessa época, as condições de trabalho não eram satisfatórias.

 

Qual foi a maior gratificação que recebeu até hoje?

A vida que Deus me proporcionou e me proporciona. Sou eternamente grato a isso.

 

O que essa profissão significa para você?

Ser médico, para mim, é como um sacerdócio, respiro e vivo a medicina praticamente 24 horas por dia. Encontro no ato de cuidar dos meus pacientes, um enorme prazer.

 

Quando ganhou o título de cidadão porto-felicense?

Ha menos de um ano. Foi em 14 de outubro de 2011.

 

Como foi receber esse título?

Recebi com enorme gratidão. Foi um reconhecimento do que fiz, faço, e sempre continuarei fazendo pela cidade de Porto Feliz.

 

O que você precisa ser melhorado na Santa Casa?

Muita coisa melhorou desde quando comecei a trabalhar nessa instituição. Mas muita coisa tem que melhorar. O hospital precisa de uma U.T.I de adultos; uma neonatal; tomografia computadorizada; implantação do serviço retaguarda de cirurgia geral e ortopedia. Há necessidade de ter um pediatra de plantão no pronto-socorro e de uma sala de recuperação anestésica. Esses serviços salvam vidas. O tempo desprendido para uma transferência pode ser o fies entre a pessoa sobreviver ou morrer. Vou dar três exemplos práticos: (1) Um jovem de 30 anos, sofre acidente de moto, chega no pronto-socorro com ruptura de baço, já instável hemodinamicamente. A chance desse paciente sobreviver será muito maior se ele for operado no próprio hospital em que foi atendido primeiramente. Pois enquanto esse paciente é transferido, ele continua sangrando dentro da sua barriga, quanto mais demora, mais sangra e menor é a chance desse paciente sobreviver. (2) Um paciente adulto, por qualquer motivo que seja, tem um quadro que necessite de U.T.I. Hoje, a realidade do Brasil é uma carência de vagas de U.T.I. Esse paciente fica dias na sala de emergência, recebendo cuidados intensivos até conseguir ser transferido. Por inúmeras vezes, cuidamos e salvamos vidas de pacientes críticos que ficam na sala de emergência esperando a vaga de U.T.I. (3) O serviço de obstetrícia do hospital é referência para outras cidades da região. Entretanto, se há um trabalho de parto prematuro, temos que transferir essa gestante para algum hospital que tenha U.T.I neonatal. Mas esse feto, durante o transporte, pode entrar em sofrimento fetal agudo e ter complicações, ou até mesmo morrer. Se houvesse uma U.T.I neonatal, as chances de isso acontecer seriam muito menores.

 

O que a Santa Casa possui de melhor?

A equipe de funcionários, médicos, enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem, funcionários da limpeza e lavanderia, recepção, cozinha e nutrição, faturamento e administração e manutenção. Todos são muito competentes nas suas funções. Em termos de serviços prestados, creio que seja o serviço de obstetrícia.

 

E o que possui de pior?

Não vejo como pior, mas sim que precisa ser aprimorado. É necessária a implantação de um serviço de cirurgia geral de emergência. Já foi tentada essa implantação, mas infelizmente não deu certo.

O que acha da Santa Casa de Porto Feliz?

Apesar das dificuldades, o hospital é bom. Tem profissionais competentes e comprometidos trabalhando aqui. O fato é que nunca me conformo com o que temos. Sempre busco a primazia, o melhor. Trabalhamos com o que é mais precioso para uma pessoa, a vida. Tem muitos hospitais de cidades menores que não chegam aos pés da Santa Casa de Porto Feliz. E em termos de cuidado, eu garanto, estamos à frente de hospitais até de Sorocaba, onde pessoas ficam internadas em corredores. Certa vez, em Sorocaba, já tive que entubar um paciente no chão da emergência, pois não tinha onde colocá-lo.

 

Mesmo assim, muitas pessoas criticam a Santa Casa. O que acha disso?

Vivemos em uma sociedade livre, democrática, todos temos o direito de ter opiniões, sejam elas concordantes ou divergentes. Isso faz com que haja a evolução do pensamento. As críticas nunca devem acabar. Se um dia não houver crítica alguma, então pode ter certeza que muita coisa está errada.

 

Você trouxe o serviço de ultrassonografia para a Santa Casa? Por que decidiu trazer esse serviço?

Sim. Eu tenho a formação para isso. Antes, todos os pacientes eram transferidos para realizar esse exame relativamente simples. Então, fiz a proposta e implantei o serviço para acabar com essa carência. E, detalhe, não enfrentei nenhum tipo de burocracia.

 

Qual a sua maior realização?

A minha maior realização continua sendo “salvar vidas”.

                                                                          A entrevista foi feita para a edição 107 da Revista Viu!

Fonte:  Revista Viu!

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