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Sexta-feira, 17 de Setembro de 2010 - 16:17
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Reminiscências de nosso maior passista

Confira abaixo na integra a entrevista publicada na edição 89

Ivan Sampaio faz uma retrospectiva do carnaval em Porto Feliz, conta como nasceu o Acadêmicos Barra Funda e como dói vê-la em decadência, juntamente com as demais escolas de samba da cidade

foto: paulo henrique baldini - revista viu!

Fevereiro chegou e trouxe com ele uma das maiores festas do Brasil, o Carnaval 2010. As marchinhas, o samba e o axé lotam as ruas de foliões que querem aproveitar os quatro dias de festas sem perder nenhum minuto. O carnaval porto-felicense que já chegou a ser considerado um dos melhores da região, mas nos últimos anos tem deixado e muito a desejar.
Nesta entrevista, Ivan Martins Sampaio, 60 anos, ex-diretor do Fórum e fundador da Acadêmicos da Barra Funda, compartilha um pouco de suas lembranças e história sobre a escola, que teve momentos de glória, mas que devido a diversos fatores vem fi cando apenas nas lembranças e está afastada da avenida em mais um carnaval. Sampaio também critica a falta de entusiasmo dos foliões e de um apoio mais efetivo da administração municipal. Confira!

Como se envolveu com o carnaval?

Começou com o Boizinho da Barra Funda, do falecido Jorge Casseta, que era tradicional da cidade e desfi lava ano após ano. Todo ano, esse senhor fazia o boizinho que trouxe para nós o espírito carnavalesco. Nós fomos criados nesse ambiente, pois a Barra Funda sempre foi um bairro festivo. Quando Jorge Casseta faleceu, nós fizemos o nosso próprio boizinho, que foi batizado de Tedéu. Em 1972, nós desfilamos pela primeira vez, mas como bloco e com direito a bateria e tudo. Desfi laram umas 60 pessoas e aí foi o primeiro passo para a Barra Funda se tornar escola de samba no ano seguinte.

E como foi no começo?
Em 1973, fundamos a Escola de Samba Acadêmicos da Barra. Eu dei o nome à escola e o símbolo. O nome Acadêmicos foi escolhido em homenagem ao Acadêmicos do Salgueiro ,que tinha sido campeão no Rio de Janeiro naquele ano. O Zé Carioca, símbolo da escola, foi escolhido porque a Barra Funda lembra os bairros cariocas, por serem muitos festivos.

Como foi o primeiro desfile?
Éramos organizados e saímos com bateria e tudo. No começo, tinha apenas uma escola de samba aqui, a Sociedade Recreativa Luís Gama, que saía esporadicamente. Então, enfrentamos uma certa resistência, mas com o nosso entusiasmo começamos a trazer mais gente para a avenida. Meu envolvimento como carnaval começou desde minha infância. Quando criança, acompanhava o carnaval, sabia quem era campeão cada ano. As pessoas aqui nem sabiam o que era Salgueiro, Mangueira, Portela. Eu sabia. Quando fundei a escola, sabia todos os quesitos e em 1974, quando a Barra ganhou o primeiro concurso de escolas de samba, eu que dei todas as informações para os juízes. Em 1975, foi criado o primeiro enredo com o tema da “Visita de Dom Pedro II a Porto Feliz, em 1846”. A letra foi feita por Caetaninho da Barra Funda e a música por meu tio Mestrinho da Banda.

Qual foi o enredo que mais marcou a Barra?
Foram dois. O primeiro que falou sobre Dom Pedro II e o com o tema “Fernão Dias e as esmeraldas”. Ambos, são sambas para escola grande, pois são lindos.

Você foi presidente da Barra?
Sim, durante muitas gestões. Meu primeiro mandato foi em 1979. Também fui o primeiro passista e dei a cara para bater, porque naquela época existia muito preconceito e só os negros podiam sambar. Fui o primeiro a cair na avenida e sambar. Falavam que não conseguiam ver meus pés no chão. Eu respiro samba, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Não apenas na época do carnaval. O samba nasceu no carnaval, mas é diário. O carnaval é consequência.

Quando foi que saiu de passista pela primeira vez?
Em 1972, quando ainda éramos blocos. Naquele tempo saía a batucada. Saímos eu e Malinha.

Como era o carnaval aqui?
Era só a Barra Funda. Não tinha Monções, ninguém. Fundamos o Boizinho Tedéu, depois a Barra Funda, a Banda do Mé e a turma foi atrás da gente.

Onde era feito o desfile?
No centro. O povo sempre prestigiou. Porto Feliz era para ter se tornado referência, porque o povo daqui é muito criativo. Quando desfi lávamos em outras cidades, recebíamos tantos elogios e o povo não se conformava da nossa cidade ter uma escola como a Barra Funda. Em 1982, fomos considerados uma das 10 melhores escolas de São Paulo. Infelizmente, hoje, a Barra Funda caiu.

Como isso aconteceu?
As pessoas foram se distanciando mudando para outros lugares, se casando. A mentalidade é diferente aqui. Os homens casam aos 21 anos e pensam que são velhos, não têm mais condições de desfilar. Mas, espera um pouco. Você vai no Rio de Janeiro é só velharada. Aqui não dão continuidade e a Barra começou a morrer lentamente.

Naquela época tinha ajuda da administração pública?
A prefeitura ajudava, mas o dinheiro sempre foi insufi ciente. Nós fazíamos eventos para arrecadar fundos o ano inteiro e tínhamos sócios que colaboravam mensalmente. Fiz muitos eventos com conjuntos ao vivo, no Asilo, e a primeira festa do Chopp da cidade. Também tinha festas juninas, alguns bingos, mas o forte era festa e bailes. Com o passar do tempo, foram mudando as pessoas e tudo foi parando. Passei muita coisa na Barra Funda, mas graças ao amor que sentia pela escola, suportei tudo.

O que lembra dos tempos de ouro da Barra Funda?
No final da década de 70, muitas pessoas da Capital compraram terras na cidade e fi cavam boquiabertos de como Porto Feliz, que naquela época era um buraco, tinha uma escola como a Barra Funda. Até a década de 90, a Barra brilhava muito no carnaval. Por onde passava, conquistava admiradores. A Barra já contou com a participação de milhares de pessoas, pois teve anos que desfilou com 400 integrantes. Mas, infelizmente, a derrocada começou após essa época. Os desfiles começaram a ser esporádicos, ninguém queria tomar a frente da escola. A partir do ano 2000, isso piorou e os desfiles diminuíram ainda mais. Em 2003, fui ajudar a arrecadar dinheiro para a Barra, acabei ficando e a escola desfilou três anos seguintes e depois só em 2007.

Existia muita rivalidade entre a Barra e a Monções?
Sim. A Monções foi criada dentro do Clube Recreativo. Na época, eu trabalhava lá e fi quei oito anos como diretor do clube. O samba não tem rivalidade, a não ser na hora do julgamento. A Monções queria destruir todo mundo para ser soberano na cidade. Hoje nem tanto, mas antigamente a rivalidade existia e era latente. Nós não fi zemos a Barra Funda para provocar. Eu falava que não tinha como concorrer porque eles são bloco e não tinham mestre sala e porta-bandeira, não tinha alas da baianas, nem dos índios. No último desfile, eles saíram com quatro, cinco baianas, e olhe lá.

O que falta para o carnaval voltar a ser como antes?
Antigamente o carnaval era preparado durante o ano todo. Quando chegava agosto, o prefeito convocava uma reunião com todos os envolvidos no carnaval. Todo mundo ia e alguns falavam que não queriam desfilar. Então, o prefeito remarcava a reunião para um mês na frente e pedia que todos pensassem novamente. Quando voltavam, todo mundo tinha mudado de ideia e resolvido desfilar. Um grupo incentivava o outro e a prefeitura ajudava como podia. Hoje, não tem mais isso. Quer sair, saia, não quer, trazemos de fora. Esse ano, eu ouvi falar que mandaram quatro ofícios, mas ninguém recebeu. Não sei para quem mandou. O melhor carnaval da região era o nosso. Porto Feliz tinha esse dom, mas não estão sabendo aproveitar. Sabe por que isso? Porque os governantes não são de carnaval, não tem isso como cultura, não veem o carnaval como a maior festa da cidade.

O qfoto: arquivo pessoal de ivan sampaioue acha do carnaval ter sido realizado no Bambu?
Errado. Lá a arquibancada ficou esquisita. Do outro lado só tem muro e isso tira a empolgação das pessoas. Sambei mais de 30 anos e sei como é importante ter a empolgação, motivação e o lugar certo. É o mesmo que ter um conjunto tocando e ninguém prestando atenção, acaba com o conjunto. Por isso, quando encontrei com o prefeito, resolvi falar com ele na rua mesmo, porque toda vez que vou no gabinete, não deixam a gente falar com ele. Pedi ao prefeito que enviasse um ofício às escolas de samba para uma reunião, pois diante do prefeito o povo muda a história e resolve desfilar. Também pedi que repensasse e trouxesse o carnaval de volta para o centro. Ele disse que estava pensando em fazer isso mesmo. Em relação à praça da Matriz, fiz até uma comparação. Eu faço uma casa nova e não posso morar porque vai sujar a parede. É o mesmo que proibir o povo de se divertir na praça. Deixou a praça linda, mas ninguém pode fazer nada lá para não estragar. Sempre vai existir
os problemas, o que tem que fazer é melhorar a segurança.

O que mais sente falta no carnaval?
Sinto falta dos blocos que desfilavam, que saíam um atrás dos outros. Antes, as famílias se uniam e formavam seu próprio bloco, como a família Campos, do falecido Eleazar da farmácia. E acabou isso aí, vai acabar tudo.

E de quem é a culpa?
Em parte, da Prefeitura que não dá um suporte mais efetivo, acompanhando de mais perto os grupos para o carnaval. Carnaval é para levar o povo na rua. Eles não vivem o carnaval. A visão deles é outra, então qualquer coisa está bom. Mas, em parte também falta iniciativa das pessoas em querer participar e fazer a diferença.

Em 2007, a prefeitura alegou irregularidades na Barra. O que houve?
Deu uma confusão por causa das notas fiscais. A prefeitura alegou que não foram cumpridas as determinações e a turma da Barra disse que as notas foram feitas conforme a determinação da prefeitura. Ainda continua sem solução.

Como se sente em relação a Barra?
Triste. É como se fosse um filho para mim. Ver acabar é muito difícil. Mas tem que ter um pouco de empenho nosso. Se eu paro, para a Barra. Fiz tudo que podia pela Barra e dói ver que está acabando.

O carnaval vai acabar?
Já está acabando. Cada ano vem se deteriorando mais. A escola de samba dá um trabalho danado. A gente esquenta a cabeça e muito. Já os blocos não precisam ensaiar, cada um leva seu instrumento, coloca a camiseta e está pronto para desfilar.Com essa mentalidade, o carnaval está acabando. A escola dá dor de cabeça porque precisa de manutenção nos instrumentos, reunir para ensaiar, construção de carros alegóricos, entre tantas outras coisas.

Fonte:  Revista Viu!

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