Notícias

Tamanho da FonteDiminuir FonteAumentar Fonte
Terça-feira, 04 de Março de 2008 - 18:48
Imprimir

O Dono da BOLA

 Treinador e jogador do time de futebol que mais alegrias deu aos porto-felicenses, a Associação Atlética Porto-felicense (AAP), campeão da Copa Arizona em 1978, aos 76 anos continua um apaixonado pelo futebol e confessa ter muitas saudades da esquadra que lotava o Estádio Julien Fouque. Nascido em Porto Feliz, Gilberto Sampaio Torres também morou em Itu e Bragança Paulista. Mesmo com a mudança dos pais para São Paulo, optou por continuar morando na cidade que nasceu e cresceu. À Viu!, ele relembra os anos dourados do futebol local, da infância e fala sobre as mudanças por quais a cidade passou.

O que mais sente falta dainfância?
De tudo. De quando fui morar em Itu e não estudava, só jogava bola no campo do Gazzola. De castigo meu pai me mandou para Bragança Paulista. Fui com 12 anos e fiquei um ano e meio. Voltei e fui para Itu, mas não queria ficar lá. Falei para o meu pai que não queria estudar, "não vai, eu não gosto, eu não suporto e quero trabalhar com o senhor". Trabalhei por 40 anos no cartório, depois fiz o ginásio onde é hoje o Museu e me formei professor na escola Normal.

Chegou a lecionar?
Não. Trabalhava com o juiz, promotor e advogado e o bom português era essencial. O juiz mandava baixar uma portaria e você tinha de ter a redação caprichada. Então fiz o normal com os professores Conceição, casada com Joaquim Neto, Antônio José Bazzo (advogado) e com o cônego Guizzi que era fera, só que tinha um gênio forte.

O futebol era sua paixão?
Sim. Parei aos 21 anos devido as contusões. Aos 22, assumi o comando do profissional da Associação e jogamos contra Limeira, Mogi Mirim, Ponte Preta, São Bento, Ituano, Paulista pela segunda divisão. Depois paramos e voltamos na terceira; aí retornamos à segundona; paramos mais ou menos em 1966 por que a cidade não comportava.

Qual era a dificuldade?
Não tínhamos renda e tudo custava muito caro, não tinha apoio, nem como tocar; não podia ficar tirando dinheiro do bolso.

Sua família sempre teve forte identificação com a AAP?
Começou comigo, meu pai era tesoureiro do União (clube). Também fui treinador do Araritaguaba. Treinei ainda o Cruz Vermelha que era um time extra daqui e o Grêmio Estudantil Porto-felicense; em Itu formamos a Portuguesinha, em Bragança eu jogava no Juventus, enganava bastante.

Como começou a sua história com a AAP?
O bandeirante Maurício (soldado), tomava conta da Associação e minha turma treinava ali. Pouco tempo depois ficou o local definitivamente para a Associação e aí, através do Dr. Moreira eu comecei a fazer ofícios e outros serviços e fui aprendendo, depois fiquei como secretário geral.

A Copa Arizona foi a maior conquista no futebol?
Sim, porque foi nacional. Eram cinco mil times e, por incrível que pareça, a Associação não consta no
livro porque Vicente Elias Shanos-que, de Itu, foi protelando e não mandou para a Gazeta Esportiva (organizadora) os dados. Justamente o campeão não saiu no livro.

Esse campeonato era anual?
Não, a Gazeta Esportiva organizava, com patrocínio da Souza Cruz. Era por eliminatórias, até chegar a grande decisão em São Paulo, no campo do Nacional. Fomos eliminados pelo Flamengo de Guarulhos, mais eles contrataram profissionais para jogar. O Coquinho entrou com recurso na Federação e retornamos; foram mais 15 jogos até o título e todos na Capital.

Qual foi o jogo mais difícil?
Todos. Eu só fui assistir a um jogo em Itapetininga contra o Avenida, um time muito fraco, mas só ficava na organização, pois era pé-frio.

Na época era o presidente do clube?
Não. Sempre fui secretário geral, só assumi por cinco meses a presidência quando Benedito Aranha foi eleito prefeito. O vice-presidente havia falecido.

Porto Feliz tem tradição de revelar bons jogadores?
Bastante. Sou suspeito para falar, mas o Hugo (irmão) e o Fábio hoje poderiam escolher time para jogar no Brasil, de tão bons que eram. O Hugo jogou no Ituano e quase foi para o São Paulo, quando a sede era no Canindé.

E o Estrela?
Era um time de onze camisas. Existiu, mas foi criado com outros objetivos, era uma ponte para um passo maior na política.

E a história do estádio Dr. Julien Fouque?
Teve um torneio em beneficio da padroeira e o time da usina jogou. Ganharam a taça com o nome da filha do doutor Julien Fouque, que acabou originando o nome.

E a rivalidade entre União e AAP.
Meu tio contava que lá na usina tinha o Excelsior e o União. Devido a conflitos diversos o Dr. Fouque decidiu parar com o time. Depois de um tempo surgiu a Associação.

A AAP era conhecida na região?
Sim, era muito conhecida. Vinha gente de Poços de Caldas, São João da Boa Vista, eram atletas que vinham jogar na AAP, como os daqui iam jogar lá.

Como vê a construção de um centro de treinamento em Porto Feliz?
O nosso futebol está partindo para uma coisa péssima, ficando na mão do empresário, que estão vinculados com a imprensa e promovem jogadores cabeça-de-bagre, fracos. Quando vamos a um jogo, percebemos que é um horror. Atleta que vai jogar no Japão, se não tem alguém aqui que dá notícia dele quando ele volta ninguém mais lembra; alguém sabe onde está o Grafite? Eu não. É preciso tomar uma atitude em relação a isso, pois antigamente era diferente.
Quem foi o responsável pela conquista da Copa Arizona?
Muito trabalho, se for lá no campo, tem a placa com o nome de todo mundo, Nego era treinador, Moacir era auxiliar.

Quem era o craque do time?
O artilheiro Xixa, o zagueiro Pedro, o Roberto. O treinador pega 11 jogadores e não pode pegar 11 técnicos, nem 11 velocistas, ele tem que colocar cada um no lugar.

Consegue imaginar a família Torres fora da AAP?
Seria uma transferência de responsabilidade. Acho que o Douglas é o presidente, eu nem procuro saber, pois toda vez que vou ao campo, a turma vem me contar problemas, então prefiro não ir.

Como o senhor vê Porto Feliz hoje?
Com muita animação. Sempre minha mulher fala que Porto Feliz vai entrar no embalo. Muitas lojas vieram para a cidade e agora as pessoas não precisam ir mais para as cidades da região para pesquisar preços. O que falta mesmo são uns restaurantes para receber os turistas e para melhor atender a população também, pois temos bastante lugares para poucas pessoas, mas nenhum para muitas.

Porto Feliz é uma cidade segura?
A insegurança acontece em todos os lugares. Não é apenas aqui. A violência é conseqüência de vários fatores. Se os policiais recebessem remunerações justas pelo que fazem não precisariam ter emprego paralelo e o governo não paga porque não quer, porque condições ele tem.

Porto Feliz é melhor hoje?
Não. Na minha época era mais gostoso. Eu e minha mulher sempre falamos, a criançada de hoje não tem o que contar. É computador, DVD, não tem conteúdo. É importante ter o momento de lazer, como tomar picada de abelha para saber que dói.

Qual seu lazer preferido?
Curto muito meus netos. Jogo bola às quartas-feiras junto com meus amigos, minha família e sempre fazemos um churrasco. O que vale é reunir os amigos, se divertir, colocar o papo em dia e viver bem. Recebo crianças e adultos durante esses encontros e me divirto muito.

Há quantos anos o senhor reúne a turma?
Com a nova estrutura vai fazer 30 anos no dia 7 de abril, quando completarei 77 anos de vida.

Qual o segredo para manter um grande grupo unido?
Acho que é a recepção, minhas filhas, minha esposa e eu recebemos alguns por obrigação e outros pelo coração, toda semana tem cerca de 14 crianças, que correm antes e depois do treino e comem e bebem refrigerantes.

O senhor joga em que posição?
Sou um jogador à moda antiga, engano na ponta, mas minha posição original, quando jogava, era lateral. Eu não era muito talentoso, jogava mal, mas tinha duas vanta-gens: velocidade e chute forte, mas tecnicamente deixava a desejar mesmo. Hoje tenho muito mais precisão, mais noção do que antes e se me deixarem parar a bola é difícil perder um passe, primeiro pela experiência de vida e segundo que eu sou dono do campo, da bola, da camisa, então a turma tem que me respeitar, não é verdade, tenho que usar e abusar dos meus direitos?

Foto: Paulo Henrique Baldini

Fonte:  Revista Viu!

Comentários

Voltar