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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009 - 11:41
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No olho do Furacão - A CRISE do outro lado do mundo

Filha de japoneses que morou em Porto Feliz relata a situação caótica de brasileiros no Japão

O colapso no sistema financeiro americano, que até então parecia longínquo e irreal para nós, brasileiros, continua fazendo vítimas. Muito pior para quem está no “olho do furacão”, onde a crise faz suas piores vítimas. A reportagem da Revista Viu! ouviu o relato de Simone Hayashi, um ex-moradora de Porto Feliz durante 17 anos e que hoje trabalha no Ministério do Trabalho “do Japão, atendendo exclusivamente brasileiros. Um desabafo impressionante. Segundo ela, a crise atingiu em cheio os trabalhadores que saíram daqui para tentar um futuro melhor na terra de seus antepassados. Falta até comida para eles. A maioria já teve a energia elétrica cortada e vive no escuro, tentando achar formas de voltar ao Brasil.
Para ela, que também pensa em retornar ao Brasil, não há mais saída para os brasileiros que moram no Japão. Segundo Simone, eles são “preguiçosos” e não buscam se aprimorar nem mesmo no conhecimento da língua.
Nessa entrevista exclusiva a Viu!, Simone conta em detalhes a situação vivida atualmente pelos brasileiros desempregados na “Terra do Sol”. Ela lembra, também, os bons momentos de sua criação e formação em Porto Feliz, citando antigos colegas, professores e vizinhos que se tornaram amigos.

Por que foi para o Japão?
Tinha 18 anos e meus pais eram super-rígidos. Queria fazer jornalismo, mas como não passei no vestibular, consegui um emprego numa agência de viagens. Lá, em plena época de febre dos dekasseguis, aprendi a lidar com passagens aéreas, ia para o consulado, para o aeroporto, adorava o trabalho. Mas a vida era muito parada e decidi ir sozinha para o Japão. Eu mesma marquei a data de viagem (31 de julho de 1990) e só avisei meus pais. Era doida mesmo, mal sabia falar japonês, somente o básico, mas queria viver a vida sozinha. Minha mãe me condenou até o último dia antes de partir. E meu pai se arrependeu de ter me prometido que quando fizesse 19 anos eu poderia fazer o que eu quisesse...

E como foi esse tempo todo em que você mora aí?
Era uma “donzelinha vagal”, que não sabia o que queria. Só queria ficar longe dos pais. Quando me levaram na fábrica da Suzuki, em Kossai, simplesmente queria voltar para o Brasil. Fiquei o dia inteiro ao lado da diretora da empresa, chorando, dizendo que não queria trabalhar numa fábrica tão grande, argumentando que iria me perder dentro da fábrica... Além de que não levava o menor jeito para trabalhar na linha de montagem. Havia trabalhado duas semanas em uma de ar-condicionados e vivia parando a linha porque eu sempre derrubava a caixa de parafusos (risos).

E depois disso?
Me mudei para Toyohashi, em Aichi, para trabalhar numa empresa chamada Marusan. Foi graças à essa empresa que aprendi a ser gente e a me virar; dei muitas cabeçadas, mas aprendi a língua japonesa desde a escrita até conversação e leitura. Ia buscar os dekasseguis no aeroporto de Narita diariamente. Aprendi a andar de shinkansen, o famoso trem bala, e de metrô em Tóquio, mas ainda faltava muita coisa. Então comprei uns livros de japonês-inglês-japonês, já que na época nem existia livros em português lá. Aprendi japonês no método pré-histórico, contando os pauzinhos e procurando no fim do livro o resumo das letras.

Como é morar em um país tão distante?
Cheguei com 19 anos – agora tenho 38 vivi metade no Brasil e metade aqui, mas foi em Toyohashi que conheci meu marido e onde tive minhas três filhas. Já morei em muitas cidades, mas gosto muito de Toyohashi e nem penso em me mudar para outra cidade.

Como está enfrentando a crise?
Esta crise pegou muita gente de surpresa, mas sempre tive a certeza de que fartura não dura para sempre. Meu marido conversa, lê e escreve fluentemente o japonês. Ele trabalha no departamento pessoal de uma empresa de peças automotivas, traduzindo aos brasileiros as ordens e regras da empresa. Todos nós vivemos numa corda bamba, nunca sabemos quando seremos dispensados. Eu mesma fui dispensada da Hitachi. Devido à crise, todos os brasileiros e até alguns japoneses com contrato temporário foram dispensados.

E os brasileiros como estão?
Os que sempre tiveram sua poupança, que nunca fizeram dívidas com cartões de crédito e foram dispensados a partir de setembro do ano passado, já retornaram ao Brasil. Mas aqueles que viviam em baladas, restaurantes aos fins de semana, fizeram dívidas enormes com compra de carros zero ou mesmo casas parceladas por 35 anos e não guardaram sequer o dinheiro para se precaverem de algum acontecimento inesperado, hoje ou vivem do básico do subsídio do seguro-desemprego ou de cestas básicas oferecidas pelas igrejas e comunidades.

O que você faz hoje?
Depois de ser dispensada da Hitachi, graças a amigos, consegui um emprego de tradutora no Ministério do Trabalho, para dar apoio aos estrangeiros desempregados.

No seu trabalho atual, dá para ver os efeitos da crise?
Dá sim. E a coisa só tá piorando. A maioria foi demitida mesmo entre setembro e dezembro e agora já não conta mais nem com o seguro. E nada de conseguir novos empregos...

Como eles estão se virando?
Muitos vivem de cesta básica doada por associações e igrejas. Tem gente que está vivendo no escuro, sem água, gás e luz. Tem gente vivendo no meio de outras 10 pessoas num mesmo apartamento. É praticamente uma situação de mendicância.

Tem muito brasileiro voltando para o Brasil?
Tem muitos que insistem. Então, pedem empréstimo ao governo para alugar apartamento e sobreviver por mais seis meses. Acabam contraindo mais dívida... E não veem que não há futuro aqui. Eu convivo semanalmente com esses brasileiros, que vêm dar entrada no seguro e eu que preparo toda a documentação...

Aumentou a procura de brasileiros pelo seguro-desemprego e outros benefícios?
Lógico! A gente atende essas pessoas normalmente às sextas-feiras, para reconhecimento. No começo de janeiro, atendíamos cerca de 150 pessoas por sexta-feira. Depois, esse número aumentou para 700! Ou seja, eram quase três mil brasileiros por mês! Mas agora está diminuindo, porque quem foi demitido no ano passado já recebeu seu seguro-desemprego... Agora, quem não foi embora pro Brasil está quase a ponto de viver debaixo da ponte. É uma situação terrível.

Por que os brasileiros passam tanta dificuldade?
O custo de vida aqui é muito alto, se não souber economizar, não irá sobrar nada. A maioria dos brasileiros vivia de vales e adiantamentos porque enviavam todo o dinheiro para o Brasil. Mas quando a economia ruiu, eles não tinham como sobreviver pra nada.

O que você tem visto em seu trabalho no Ministério?
Vejo pessoas quase chorando, desesperadas. Outro dia tinha um que ia ser preso por não ter pago multa de trânsito, acredita?

O que você tem feito para superar os problemas?
Economizando muito e controlando os gastos. Graças ao meu marido, que tem o dom de economizar, conseguimos pagar os gastos iniciais do colegial da minha filha de 16 anos. Somente matrícula, mensalidade trimestral, uniforme, material escolar e passe de trem por seis meses, até abril gastamos em torno de 700 mil yenes. Fora que ainda virão mais as mensalidades e a poupança de viagem da formatura para a Austrália, que somam mais 600 mil yenes. Não é fácil sustentar um filho numa escola privada. Mas minha família, pelo menos, come bem! Até comprei um forno, onde faço, desde lasanha, pizza, pastel, nhoque e tudo o que temos direito a comer. Claro que não todos os dias, mas nunca deixamos de ser brasileiros!

A gente vê pela TV que muitas coisas comuns aqui custam uma fortuna aí. Como é conviver com essa realidade?
Conviver com o preço das frutas é como conviver com 1 yen que você gasta por dia. Ou seja, ou gasta ou economiza. Frutas e verduras são caríssimas, mas não deixamos de comer, principalmente pela saúde. Claro que não comemos manga a torto e a direito, nem abacate, nem mamão. São frutas caríssimas, custando em torno de 400 ate 1.000 yenes cada. Uma vez, comprei uma goiaba para minha mãe matar a vontade, que custou quase 700 yenes! Laranja, principalmente é muito caro. Em compensação, temos frutas da estação em conta, como pêras japonesas, pêssegos e melancia. Na época de morangos, vou à cooperativa e compro direto do produtor local.

Você faz algum bico?
Sim. Eu faço massagens terapêuticas nos japoneses estressados.

Onde você ganha mais?
No Ministério, mas lá sou temporária... Quando não houver mais brasileiros trabalhando no Japão, também não terei mais trabalho...

Acredita que não haverá mais brasileiros trabalhando aí?
Sim. Além de toda a crise, tem entrado muito filipino, indonésio, chinês, tailandês... Por isso penso em ir embora logo. O espaço para os brasileiros aqui está cada vez menor.

Como é a cultura brasileira comparada a dos japoneses?
Falar em cultura é um assunto infinito. Tem japoneses que gostam muitos dos brasileiros e vice-versa. O importante é podermos viver em harmonia com eles, respeitando as regras da sociedade em que estamos vivendo.

O que os japoneses acham dos brasileiros? E do Brasil?
Existe muito racismo neste país! Mas se os estrangeiros respeitassem um pouco mais as regras, os japonesesiriam nos ver com outros olhos. O que me dói muito é quando vejo um brasileiro, que trabalha honestamente, procurar emprego e, mesmo sabendo conversar bem e ler, mas com dificuldades de escrever, não conseguir uma colocação. É difícil dizer para esse desempregado que tal empresa nunca trabalhou com estrangeiros. Esta crise veio de repente e pegou todos de
calças curtas. Ainda continuamos a ser os robôs com vida esperando uma colocação para sermos manuseados conforme a necessidade deles.

O que mais sente falta do Brasil?
Fui para Coréia e me lembrei de São Paulo, Os coreanos são como os brasileiros. Calorosos, uma força enorme nos olhos e mesmo não entendendo a língua eles tentam nos ajudar. Bateu uma saudade enorme do Brasil. No Japão falta calor humano, ajuda mútua e, se continuar assim, até nós brasileiros iremos esquecer como somos.

Fale um pouco de sua vida, família, perspectivas e sonhos...
Sempre disse que não tenho pressa de voltar. Até onde puder dar educação às crianças, vou ficando. Mas depois que entrei no Ministério e atendo o pessoal desempregado, me deu uma vontade de
estar no Brasil. Não tenho patrimônios e nem dinheiro para poder retornar, mas a minha bagagem está repleta de sonhos, como estudar mais o japonês, tirar licenciaturas, diplomas de massagem estética e relaxamento. Quero voltar a São Paulo e fazer massagens de shiatsu e relaxamento muscular para os paulistanos. Tenho muita fé que o Brasil irá melhorar e muito, porque o país é maravilhoso.

Fonte:  Revista Viu! - Ed. 83

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