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Segunda-feira, 10 de Julho de 2006 - 12:12
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Carlinhos fala sobre saúde e diz que deseja ser mais ouvido

O meio político é um terreno fértil para a demagogia. Raramente encontra-se alguém disposto a dizer, de verdade, o que pensa. O vereador Carlos Roberto de Oliveira, o Carlinhos do PT, é um desses. Eleito o parlamentar mais votado do PT, ele confessa que não tem espaço no governo de Cláudio Maffei, de seu próprio partido, para dar suas opiniões. “O prefeito é muito ocupado”, acredita.

Nesta entrevista, Carlinhos também revela sua frustração pela decisão de Maffei manter no cargo o servidor Chico Coan, apontado como responsável por irregularidades na CEI do Meio Ambiente, da qual foi o parlamentar relator.

Convalescendo-se de uma delicada cirurgia, o jovem vereador de 35 anos revela os momentos difíceis que passou antes, durante e após a intervenção de mais de seis horas que tirou um tumor benigno de seu cérebro.

Como está sua saúde?

Estou em fase de observação. Tenho que respeitar as orientações médicas e não posso entrar naquele ritmo que estava antes. Tenho que fazer repouso e, aos poucos, ir voltando.

O que você teve, efetivamente?

Tive um tumor chamado papiloma invertido. É a segunda cirurgia que faço. É um tipo de câncer não maligno, mas que tem um comportamento maligno. O câncer cresce rápido demais, quando percebi já tinha tomado conta da parte facial, chegando a parte cavernosa do cérebro.

Como foi essa cirurgia? Foi demorada?

Existem certas coisas que não têm explicação. O médico pensava que a doença poderia ter se tornado maligna. Todas as pessoas, de várias religiões, oraram para que ocorresse tudo bem na cirurgia. Demorou entre 6 e 7 horas no Hospital Paulista de Medicina e tudo correu muito bem. Eles conseguiram arrancar o tumor e o olho não foi afetado em nada. Tenho fé e acredito que, devido a mão de Deus, escapei de um problema seríssimo.

Seu olho direito está prejudicado?

Não, está funcionando, estou enxergando. Antes de operar, já estava com problema. Meu olho já está normal, mas vou ter de fazer uma cirurgia plástica de correção para abaixar e voltar a pálpebra; ele está vermelho por irritação.

Passar por uma cirurgia extremamente delicada, pensando tratar-se inicialmente de um tumor maligno, fez você ver o mundo diferente? O que mudou na sua vida?

Refleti muito sobre isso. Tenho muita fé. A minha esposa Ana ficou totalmente do meu lado quando mais precisei. Ela chegou para mim e disse que todo mundo estava torcendo e orando por mim. Então fui mais fortalecido para a cirurgia. Posso dizer que tenho fé, acredito em Deus e pude sentir isso. É uma coisa que não tem como explicar.

Qual foi o momento mais difícil para você?

Quando saí da cirurgia, sentia muitas dores. Uma parte do rosto doía demais, queimava, tanto a parte da cabeça quanto do lado. Quando vi meu rosto todo inchado, fiquei muito abalado, pois estava todo marcado. Só quem viu foram as pessoas mais próximas, como o amigo Robertinho (Roberto Brandão, vereador do PT) e minha esposa. Eu não imaginava que ia ficar assim, mas depois, com a orientação do médico, voltei a acreditar que ia ficar bem, com o apoio de toda minha família.

Você ficou com medo de morrer?

Não, isso não fiquei, em nenhum momento cheguei a pensar nisso. Fiquei com medo de ficar com seqüelas, como problemas de andar e falar, mas tenho uma religiosidade muito grande e as pessoas da minha comunidade passaram muitas energias positivas para mim.

Como é depender da Saúde Pública, como foi o seu caso, para tratar um problema grave?

É uma situação complicada. Fiquei um dia e meio no Hospital Albert Einsten. Eles chegaram a dizer que eu ia fazer a cirurgia, mas eles iriam cobrar 200 mil reais. Aquilo com uma deputada para arrumar uma vaga em um hospital público. Tive o apoio de companheiros, que no momento mais difícil da minha vida disseram que estavam comigo. Foi o assessor da Iara Bernardi que conseguiu uma vaga para mim no Hospital Paulista de Medicina. Foi com muita luta, mas eles conseguiram.

Fico imaginando quantas pessoas que têm casos graves e não têm atendimento necessário. Passa isso pela sua cabeça?

Acredito que o cidadão comum tem uma série de dificuldades de conseguir vagas nesses hospitais, porque a procura é muito grande. Lamento dizer que as pessoas hoje sofrem por não conseguirem vaga, e muitas morrem. É por Deus. Você pede para que Ele prepare alguém para te ajudar e precisa acreditar que vai conseguir.

É fé, mas é um assunto político também, porque a saúde pública está nas mãos dos políticos. Como é que você vê essa situação?

Vejo com muita tristeza, pois mesmo sendo político, não conseguiria atender a demanda que existe. Acredito que o governo deveria dar mais atenção para a questão da saúde. É lamentável o que acontece no Brasil hoje. Em qualquer lugar que você vai, existem filas enormes de pessoas que querem se aposentar, uma operação, a demanda é muito alta. A saída, na minha opinião, é a prevenção. Se você trabalhar com a prevenção, como a Polícia Militar trabalha hoje, você começa a obter resultados. Mas se você não tem um projeto definido com a saúde, você acaba tendo pessoas demais doentes.

Como está a saúde em Porto Feliz hoje?

Na minha avaliação, a saúde está complicada. Estou acompanhando o trabalho da entidade chamada Isama, tive a oportunidade de conversar com o diretor responsável por cuidar do treinamento dos agentes do PSF (Programa da Saúde da Família). Lamento dizer, mas é uma situação complicada. Você tem de trabalhar com planejamento, como hoje o município vem fazendo. Sou obrigado a defender este trabalho brilhante que o Isama vem fazendo.

Essa Isama é uma das Oscips que estão sendo investigadas? Como você vê essa polêmica?

Vejo com muita preocupação, porque o dia em que vi a reportagem da Tribuna (sobre representação de irregularidades ao Ministério Público), fiquei preocupado. Pretendo tomar mais conhecimento para poder falar com mais embasamento e conhecimento sobre a Oscip.

A Isama foi apontada pela vereadora Simone Prado como parte de um esquema para ser favorecida.

Se foi favorecida ou não, desconheço, porque não acompanhei. Não sei se ela investigou, não pude acompanhar. O que estou acompanhando é o trabalho que a Isama vem fazendo, que é um trabalho sério, que não tinha antes. Para você ter uma idéia, eles compraram três micros, que vão ser colocados no posto. Mas se houve benefícios ou não, espero que seja apurado e que a verdade apareça. Se houve benefícios, as pessoas que fizeram isto devem ser punidas, sou totalmente contra isso.

Você é líder da bancada do PT na Câmara, onde estão acontecendo muitos enfrentamentos entre oposição e situação. Como você analisa isso?

Sou uma pessoa que procura se preparar para cada sessão. O vereador tem de estar preparado para participar dos debates. Tenho um relacionamento transparente e procuro ir atrás das informações. Mas não é fácil, porque, às vezes, você acaba não sendo informado sobre as coisas. A oposição critica o que ela acha que não está correto no executivo.

Como você recebe essas críticas?

Acho que a oposição faz o seu papel, mas se ela está mal informada, se desconhece algumas coisas, como vereador tenho o direito de ir até uma diretoria e outra pedir informações. É preciso justificar, ter provas, fundamentos e embasamentos.

Como líder da bancada no legislativo, como é seu relacionamento com o prefeito?

Meu relacionamento com o prefeito, antes de eu ficar doente, era de respeito. Como disse, eu ia atrás daquilo que julgava importante. Acredito que o prefeito é uma pessoa ética, transparente e o defendo com a maior clareza, como sempre fiz como líder de bancada. Ele está fazendo o melhor possível.

Vocês discutem sobre estas questões que estão sendo levantadas pelo legislativo?

Como sou líder da bancada, não sou chamado para receber informações do que vai acontecer. Acredito que, como líder de bancada, deveria ser chamado.

Por que você não é chamado?

Acredito que por falta de boa vontade do prefeito ou dos diretores. Espero que o líder de governo (Miguel Arcanjo) seja chamado, lógico. Posso dizer que não sou chamado.

Como é a relação de vocês três lá? (Miguel, Robertinho e Carlinhos) junto ao Executivo?

Como líder da bancada, tenho que conversar com eles, mas o líder de governo poderia falar melhor. Só digo que não sou chamado para ouvir o que o executivo vai fazer. Se fosse, é lógico que seria muito mais interessante, porque iria mais preparado. Quando tenho uma dúvida, vou atrás do chefe do governo, dos diretores para me explicar o que não entendo. Quando tem um assunto polêmico, chamo a bancada, e decidimos o que fazer entre nós três: eu, Robertinho e Miguel, pelo qual tenho grande respeito.

É difícil falar com o prefeito hoje, como a parte da população vive afirmando?

É difícil porque ele acaba dizendo que não tem tempo, fica muito ocupado. É uma pessoa que trabalha muito, está sempre com a agenda lotada, e sempre tem assuntos para resolver. Infelizmente, hoje é difícil você falar com o prefeito.

É ruim assim mesmo: uma pessoa do mesmo partido não conseguir falar com o prefeito?

É ruim, mas particularmente entendo o prefeito, porque sei que ele trabalha demais. Porém, fico triste, pois gostaria de ter mais acesso e de ser recebido, pois fui o vereador mais votado do partido. Tive 513 votos, sem dar um centavo para ninguém, na raça, trabalhando praticamente sozinho, na comunidade, no Conseg.

Você foi relator da CEI do Meio Ambiente, que acabou apontando irregularidades. Como é que o governo recebeu essa sua postura?

Não sei exatamente, porque o relatório foi lido em plenário e depois encaminhado ao Ministério Público. Pessoalmente, na oportunidade em que tive de falar com as pessoas, principalmente na diretoria, disse o seguinte: eu, baseado em depoimentos da CEI, cheguei à conclusão que teve a intenção de favorecimento. Se o executivo tirou ou não a pessoa, tenho que respeitar, pois quem manda é ele. Se tivesse me chamado e perguntado, diria que ele deveria ser demitido.

Você está falando de Chico Coan, certo?

Exatamente. As coisas acontecem e, infelizmente, ele não foi demitido. Respeito esse ponto de vista, porque o meu papel eu fiz, e o fiz com consciência tranqüila, porque a partir do momento que você obteve depoimentos de várias pessoas, a conclusão foi essa: houve intenção de favorecimento ao filho do Chico Coan.

Você foi influenciado para ter uma posição ou uma postura diferente?

Não, não fui influenciado por nada em nenhum momento, porque acompanhei a CEI e lamento que essas coisas tenham acontecido. Falei antes e volto a falar: não sei se foi por ingenuidade ou se agiu já com pensamento, mas lamento isso. Espero que isto sirva de exemplo para que as pessoas que participem de licitações hoje respeitem as regras e não tentem fazer mais, pois, se fizer, vai ser denunciado. É inadmissível que a pessoa que foi apontada com um erro, principalmente tendo um líder da bancada participando da CEI, seja mantida no governo. O que você pode fazer? Devo respeitar a posição do executivo, só isso.

Você se sente menosprezado por isso dentro do partido?

Tenho a obrigação de defender o governo, e não me sinto ofendido. Porque tenho uma forma de respeitar o executivo e as decisões que ele toma. Se as decisões estão certas ou erradas, é o executivo, não o vereador.

carlinhos, vereador do pt

Qual o seu projeto político?

É ser prefeito de Porto Feliz. Tenho este desejo, mas preciso estar preparado para isso. Acredito que com dois ou três mandatos de vereador, eu esteja preparado, se a população me der essa credibilidade.

Mais alguma coisa que gostaria de acrescentar?

Só queria dizer que acredito que o trabalho que a Revista Viu! vem fazendo é um trabalho sério. Queria parabenizar a revista pelo episódio que aconteceu do Valter Saci. Acredito que, se não fosse a bancada do PT, ele tinha escapado.

Fonte:  Revista Viu!

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