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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009 - 10:12
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APAE: caminho certo para a inclusão

Confira na integra a entrevista que o presidente da APAE de Porto Feliz concedeu a Revista Viu! em dezembro de 2008.

Quando se fala em deficiência é automático se lembrar da APAE (Associação dos Pais e Amigosdos Excepcionais), entidade que atende pessoas com vários tipos de comprometimentos e, além do trabalho na educação, também tem um centro de reabilitação terapêutico para quem precisa. Outro ponto importante é sobre a educação inclusiva que é um enorme desafio para o sistema educacional brasileiro e representa um novo caminho que está sendo construído por tantas e tantas pessoas que sonham com uma sociedade justa, solidária e pronta para garantir os direitos de todas as pessoas que nela vivem.
Nesta entrevista, João César Fernandes Stetner, 58 anos, professor aposentado, assessor de turismo municipal e presidente da APAE há cerca de 10 anos, conta como se envolveu com a entidade, fala sobre o que foi feito nos últimos anos e quais são os planos até 2010, quando deve deixar a presidência.

Como começou sua carreira?
Comecei a lecionar enquanto cursava a faculdade. Naquela época dava aula para o mobral na Fazenda Capoava. No último ano, comecei a dar aulas para alunos da 5ª série. Dei aulas de português/inglês durante 34 anos e me aposentei proporcionalmente em 2003, após ter sido readaptado na escola Monsenhor Seckler.

Como se envolveu com a APAE ?
Então, era para eu ter me aposentado em 1999, mas devido a duas mudanças na lei, acabei parando em 2003, mas como ia me aposentar antes comecei a pensar no que poderia fazer depois que estivesse aposentado e procurei conhecer o trabalho de várias entidades para ser voluntário. Acabei conhecendo a Luciana Neves Dal Pozzo, que na época já estava na APAE há quatro anos, me convidou para fazer uma visita à entidade e percebi que a proposta de Deus para mim era essa mesma.


Como chegou a presidência?
Conheci a entidade e me candidatei ao cargo de presidente, o qual assumi no ano seguinte e tenho dado continuidade há quase dez anos. A APAE é uma entidade filantrópica, então, ao contrário do que muitas pessoas pensam e criticam, não recebo nada por este serviço que é feito voluntariamente e com muito amor.


Como funciona a eleição?
Antigamente, a eleição era anual, mas com o tempo, fizemos uma alteração por meio de assembléia geral e mudamos para cada três anos e a próxima será em 2010. Todo ano, era muito difícil conseguir alguém para assumir a vaga e até hoje é assim. Quando convidamos as pessoas, elas sempre estão sem tempo ou tem outroscompromissos. No entanto, é difícil conseguir alguém que tenha tempo para se dedicar, que assuma o trabalho da gente, dê continuidade, que respeite o que foi feito e faça mais.


Qual sua função na APAE?
Durante esses anos, consegui formar uma equipe, a qual tem profissionais-chaves em cada ponta, que são responsáveis pelo serviço e eu apenas gerencio, fazendo cobranças e verificando se tudo está sendo feito.


Qual a estrutura da entidade?
Temos a escola Professora Nair Antunes de Almeida que é composta por professores, coordenador e diretor; o Centro de Reabilitação Professora Luíza Moura Siqueira composto por uma equipe profissional de terapeuta ocupacional, fonoaudióloga, psicóloga, fisioterapeuta e assistente social e a Casa Lar que será inaugurada no próximo ano. Lógico que se fosse possível, nós estaríamos fazendo muito mais, mas nem sempre temos condições de contratar mais profissionais. Quando cheguei na APAE só tinha um único prédio e tanto a reabilitação quanto a educação ficavam no mesmo lugar. Hoje, temos dois prédios separados, um usado apenas para educação e outro para o atendimento terapêutico.


Quais são as outras atividades extra-curriculares?
Os alunos fazem trabalho de artesanato, participam de oficinas pedagógicas, onde aprendem a fazer trabalhos que podem se transformar em uma fonte de renda mais tarde, como por exemplo, papietagem, cerâmica, caixarias de jornal, cestinha e tem também a cozinha pedagógica, onde os alunos aprendem a fazer pães, bolos e que são vendidos para as pessoas e o dinheiro revertido para a entidade.

Que tipos de deficiências a APAE atende?
Atende diversos tipos de deficiências que vão desde leve, moderada, severa até profunda. Temos alunos com deficiência mental, com problemas motores, síndrome de down, autista, deficiente visual, auditivo e físico. Temos um trabalho de estimulação precoce, no qual atendemos bebês a partir de oito meses, pois quanto mais rápido for a identificação, mais fácil da criança se desenvolver. Temos até pessoas com mais de 60 anos.


Esses alunos estão incluídos nas escolas da cidade?
Após algum tempo, os alunos são incluídos nas escolas, mas temos um projeto que está sendo desenvolvido em parceria com a diretoria de educação que chama “Construindo escola para todos” e abrange toda a educação inclusiva, fala sobre as adaptações físicas nas escolas (banheiros, rampas) e capacitar o corpo docente para receber esses alunos especiais. A proposta é que a APAE dê essa consultoria para a prefeitura e em troca seja paga por essa assessoria.


Quantos funcionários trabalham na APAE?
Temos 60 funcionários fora os voluntários que trabalham nos eventos que realizamos durante o ano.

Antes de ingressar na APAE , a criança passa por triagem?
Assim que os pais decidem procurar APAE, a criança passa por uma anamnese, onde uma equipe de especialistas e um neurologista vão dar o laudo conclusivo, atestando se o caso é da APAE ou não. Isso porque algumas crianças são enviadas para a entidade pelo professor, que tem mania de dizer que a criança é louca e lugar de louco é na APAE. Só que lá não tem loucos e sim deficientes. Alguns casos comprovam que a única coisa que a criança precisa é de um currículo que se adeqüe às suas necessidades e que tenha apoio de uma equipe certa. Esses professores querem fazer a inclusão ao contrário, pois em vez de tirar da APAE e colocar na escola tradicional, querem tirar da tradicional para colocar na APAE.


A entidade dá algum suporte para os pais também?
Geralmente, quando descobrem que o filho tem algum problema, os pais tem dificuldades em aceitar essa realidade, pois tem idéias pré-concebidas com visão atravessada sobre a APAE, então, costumamos conversar bastante e mostrar o trabalho que fazemos para que eles vejam a importância de ter o tratamento adequado para seus filhos.


De onde vêm os recursos para manter a APAE ?
Vem da Secretaria do Estado de Educação, recebemos uma subvenção mensal da prefeitura, temos sócios-doadores (que são contatados por nossos telemarketings e ajudam com valores mensais) e realizamos diversos eventos durante o ano, como bingos, jantares, bazares, feiras e etc. Temos sorte, pois o povo porto-felicense é muito bondoso e ajuda da melhor forma que pode a APAE continuar com seu trabalho.


Como avalia os seus dez anos à frente da entidade?
Estamos fazendo uma pesquisa para verificar como os pais vêem nosso trabalho, pois a gente ouve comentários nos quais, eles falam que notaram uma diferença nos últimos anos, mas essa pesquisa é importante para determinar o que precisa melhorar para chegar no ideal, que é o que buscamos.


Quais são seus planos para o futuro da APAE?
Conquistar um espaço próprio para realizar a equoterapia, inaugurar a Casa Lar e realizar sessões de hidroterapia para os alunos. Estamos conversando com o prefeito para utilizar o terreno, que vinha sendo usado para horticultura, mas devido ao sol, esse projeto foi cancelado, para construir nosso centro de equoterapia, pois temos dois cavalos e usávamos o CEMEX para fazer isso. Já a Casa Lar começará a funcionar daqui uns três meses, pois precisaremos de um casal para trabalhar e essa missão de achar alguém é como garimpar anjos. O Rotary Clube e a Lanxess doaram todo o material para deixar a casa pronta. Devo deixar a presidência em 2010, para que outra pessoa possa assumir essa missão.


Como surgiu a idéia de construir a Casa Lar?
Surgiu depois de percebermos a preocupação que os pais tinham com os filhos após sua morte, pois a não ser que o deficiente receba uma pensão do governo, a maioria dos familiares não quer assumir essa responsabilidade de cuidar de uma pessoa deficiente. A Casa Lar ainda não está funcionando porque não tinha toda a infra-estrutura, mas através de um trabalho feito pelo Rotary Club e Lanxess, os móveis,eletrodomésticos e maquinário da casa foram doados por conta deles.

Qual o objetivo da Casa Lar?
É receber e cuidar dos deficientes em estado de orfandade. Nessa casa, terá um casal que será como os pais deles e eles terão roupa limpinha, cama, comida, enfim, ter sua casa e também a oportunidade de terem uma vida normal, ajudando no que puderem, dentro de suas limitações. Também terão profissionais da saúde que ajudarão a cuidar dos que precisarem, como auxiliares de enfermagem e enfermeiros.

A Casa Lar foi construída com que recursos?
Além de doações da população e da arrecadação por meio de eventos realizados por nós, conseguimos uma verba pelo deputado Fleury no valor de R$ 60 mil que ajudou bastante. Também recebemos a ajuda do Rotary Club e da Lanxess. O lote foi doado pela prefeitura e pertence à entidade.

O que as pessoas devem fazer para colaborar com a APAE?
Devem procurar a entidade ou ligar para o telefone 15 3262-1772 para se informar de como colaborar.


Os pais pagam algum valor por mês para a APAE?
Existem pais que são sócios-doadores, mas por opção e não por obrigação, pois ninguém é obrigado a doar.


Qual apoio a APAE recebe da prefeitura?
Recebemos a merenda, frutas, legumes e também uma subvenção de R$ 25 mil mensais que são usados para o pagamento dos funcionários.


Como você vê a reeleição do prefeito para a entidade?
Nosso relacionamento com o atual prefeito é muito saudável. Ele sempre nos recebe e no que é possível, sempre nos ajuda. A prefeitura tem dado início a acessibilidade da cidade, como por exemplo, a nova praça da matriz, que tem rampas em diversos lugares. No entanto, esse tipo de trabalho leva tempo para ser concluído, pois antes tem que se conscientizar as pessoas da importância desse trabalho para todos.


Como você acha que essa conscientização deve ser feita?
Deve ser feita através da mídia, seja ela, revista, jornal, rádio,TV ou até mesmo, pelo tradicional boca-a-boca. O importante é dar o primeiro passo.


O porto-felicense é preconceituoso com os deficientes?
No primeiro momento, as pessoas têm um olhar de compaixão, mas isso não é necessário, pois os deficientes têm vida própria, vontade, um jeito de ser natural. Eles são, de certa forma, privilegiados, pois são honestos, verdadeiros, e não se preocupam com as regras impostas pela sociedade.

Fonte:  Revista Viu!

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