Notícias

Tamanho da FonteDiminuir FonteAumentar Fonte
Quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 - 13:17
Imprimir

A arte na boa educação

O professor João Luiz de Oliveira, de 59 anos, é o que se pode chamar de um bandeirante dos tempos modernos. Está sempre atrás de novos desafios. No momento, divide-se em duas correntes: a arte e a educação. Recentemente, dirigiu a peça “Não te conto nada”. O pano de fundo do trabalho é o resgate do potencial artístico e cultural da cidade, por meio do grupo Hotel Cinco Estrelas. “Sumiram com os bandeirantes de Porto Feliz”, constata o diretor, conhecido no meio artístico por Joy.

Como viver de arte ainda é uma tarefa desbravadora no Brasil, o professor João Luiz carrega uma outra bandeira, talvez tão pesada quanto. É um entusiasta da educação. Em junho, assumiu a função de supervisor de ensino da região, deixando São Paulo e elegendo a cidade com o seu último porto. “Pretendo morrer aqui”, profetiza. Nesta entrevista, ele revela como navega entre a arte e a educação. Diz, em especial, alguns dos problemas graves que encontrou na estrutura de ensino de Porto Feliz, como a falta de alunos nas salas de aula.

Por que você decidiu morar e trabalhar em Porto Feliz?

Em um determinado momento de minha vida, fui morar em uma república e conheci o Eud (José Eud Antunes). Comecei a vir muito para Porto Feliz, por causa da escola de samba da Barra. Aí dona Maria (mãe de Eud) me adotou e fui ficando. Costumo dizer que meu pai e minha mãe escolheram Garça para eu nascer. Eu escolhi Porto Feliz para morrer. Penso que aqui quero viver até a minha morte. Espero viver 100 anos.

Quanto tempo faz que você está em Porto Feliz?

Fiquei quatro meses sem trabalhar em educação, porque estava de licença e férias. Queria antes estabelecer alguma rotina de trabalho e interação com a sociedade para que pudesse me aposentar e não sentir falta do meu trabalho. É o que a gente está tentando fazer com o grupo Hotel 5 estrelas. Pretendemos transformá-lo em um instrumento que já existia, quando trabalhamos na gestão do Léo (Leonardo Rogado, ex-prefeito), que deu muita atenção para esta questão da arte até 2000. Hoje se fala mais em bandeirantes em Sorocaba e em Itu, do que aqui. Aqui sumiram os bandeirantes. A festa das Monções está estiolando.

O teatro é um caminho para esse resgate?

Não é só teatro. A proposta do grupo é que nós consigamos nos organizar de tal forma que irradie possibilidades. Não só cultura, mas cultura popular e arte. A questão dos artesãos é um bom exemplo. Pretendemos montar uma organização que consiga ensinar alguma coisa para esta molecada que está aí. Tem muitas Ongs (Organizações Não-Governamental) seguindo este caminho. Nós estamos tentando criar uma instituição nesse sentido, até mesmo para podermos obter recursos financeiros, porque não dá para fazer nada sem dinheiro.

Como seria essa ponte entre o teatro e outras atividades?

Um deles seria mesmo organizar o grupo de artesãos. Um cara que sabe fazer crochê, chama 10 a 15 crianças e adolescentes e vamos ensinar e produzir juntos. Tem alguém que sabe lidar com palha de bananeira, vamos ver o que dá para sair disso. Seria isso, abrir possibilidades de acordo com as habilidades existentes.

O objetivo, então, é organizar essas iniciativas?

Também tentar melhorar o que já tinha. Veja, por exemplo, a Semana das Monções. Nós apresentamos uma proposta para o Léo sobre ter uma cidade temática aqui. Não era para fazer um dia ou uma semana, mas caminhar no sentido de construir uma cidade temática que dê conta das questões do bandeiritismo, não só das monções. Com isso, mil coisas poderiam estar acontecendo. Hoje, falta continuidade. As pessoas têm compromissos por uma ou duas semanas e, em via de regra, acabam ao final do processo ficando estafadas, até com perda de saúde.

E na educação, qual foi a realidade que você encontrou em Porto Feliz?

Não é muito diferente da de São Paulo. Porto Feliz tem uns prédios muito estranhos, tirando a escola estadual Professora Aurora Machado Guimarães, que tem um prédio simpático, agradável. Os prédios escolares não são agradáveis, e a culpa é da própria estrutura, não das pessoas que trabalham lá.

Além da questão estrutural, o que mais você notou nas escolas?

A questão de não trabalharem coletivamente. É uma coisa individual. Digo coletivamente no sentido de uma escola ajudar a outra. A gente precisa se ajudar. Há uma predisposição, mas acaba não acontecendo a junção.

Por que acontece isso?

Não sei. Esses porquês que você está colocando são os mesmos que me deixam maluco. Quando cheguei aqui, percebi que os alunos que saíam da quarta série de uma escola e iam para outra encontravam uma realidade totalmente diferente. Uma escola tem uma limpeza maravilhosa e os alunos cooperam; na outra, um monte de sujeira no chão. Fui tentar saber o porquê da diferença e me responderam que na escola limpa tinham muitos funcionários. Fui verificar e tinha menos que na outra. Nestas questões a gente não consegue avançar, porque tem sempre um culpado que não sou eu. Fiz uma proposta e as duas escolas já toparam. As duas se juntaram, reclamaram de tudo o que não gostaram e depois pensamos em estratégias para que os erros não se repetissem em 2007. Então uma coisa maravilhosa aconteceu.

A idéia é fazer trocas de experiência?

Mais do que experiência é importante fazer trocas de vivências. Porque nós temos toda uma cultura dentro de escolas públicas, de trocar experiências. Junta, reúne, rala, rala, rala os adultos e a molecada fica lá.

Existe revanche entre as escolas?

Não sei o que é, mas é estranho. Desde quando o aluno tem problema geográfico? Não tem. O que sinto é falta nas interações humanas nas escolas. Parece que o profissionalismo não chegou. Alguns professores reclamam da falta excessiva dos alunos, mas não fazem nada para mudar. A função do professor não é só cumprir horário. Se ele não tem nada para fazer, tem que ir na casa buscar o aluno e não cumprir horário. São coisas assim que eu não consigo atinar. Meu Deus do céu., tem que mudar porque está piorando cada vez mais. Eu também de vez em quando matava aula, pulava muro, ia embora, mas era uma coisa excepcional, hoje está virando rotina. Fala-se que na sexta-feira não tem aula, mas o que eles estão fazendo para os alunos? Estão dando ditados, cópias, questionários, mas estão incentivando?

Professor tem grande parcela de culpa?

A questão não é de culpa, porque nós temos que estar conscientes que nós estamos trabalhando na formação de geração e não só de conhecimento. É valor. E para absorver isso é preciso passar por vivências. O aluno não precisa de discursos e sermões, alunos precisam de vivências. Respeito, cidadania, carinho, respeito à diferença. São essas coisas que os alunos precisam e compete a escola fazer isso.

As pessoas da escola são acomodadas?

Mas não pode. Enquanto povo, posso ser acomodado, mas como profissional não posso ser acomodado. Imagine só se todo profissional for acomodado, quanta gente não vai morrer aqui na mesa de operação. Ou senão a casa vai cair porque o engenheiro está acomodado. Como cidadão posso ser acomodado, não ir atrás de nada, mas como profissional tenho uma função social, ganho para isso. Mal, mas ganho. Já pensou se médico só cumprisse seu horário?

Por que os professores chegaram neste ponto?

É estranho, mas acho que a gente precisa ter o choque de profissionalismo, pensar que o emprego está em jogo, pois se acabar aluno na escola, cada professor, diretor fica sem emprego.

Como o corpo docente está recebendo a sua visão, a sua energia?

Acredito que sou mais uma coisa para piorar o ativismo. Estou virando um elemento externo, que é o culpado por algumas coisas dentro da escola. Mas é minha profissão. Assino coisas para que se cumpra o mínimo legal, como, por exemplo, o mínimo de 200 dias de aula. Como eu vou assinar isso, sabendo que a escola não teve 200 dias de aulas? É direito constitucional. A LDB é uma lei constitucional e não ordinária.

A questão de progressão continuada tem alguma coisa a ver com isso.

Absolutamente nada.

Por que o aluno não vai na escola, porque não precisa ter nota, não precisa estudar?

O aluno não precisa ter nota, ele precisa ir na escola e aprender. Se eu tivesse algum peso, faria a seguinte reforma: todos os alunos seriam promovidos desde que freqüentassem as aulas. Quem vai avaliar se eles estão prontos ou não é a sociedade. Alguém lá fora, vai fazer os exames no aluno, é como acontece nos EUA.

E as condições de trabalho dos professores?

Esse é outro problema. Não me conformo com professores que trabalham 16 aulas por dia. Ele pode dar 8 no Estado e 8 na Prefeitura. É muita aula para uma pessoa só. Por semana é um numero exorbitante. Mas, às vezes, ele é obrigado. Veja você, um cara que dá 16 aulas por dia, ele convive com 30 alunos por classe, 480 alunos por dia. Da para imaginar o que é isso? Faz uma atividade, corrige e vê o que sobra de tempo.

Dá para enxergar uma perspectiva de melhora no âmbito municipal?

Tem uma coisa que estou impressionado em Porto Feliz. A dinâmica de crescimento da cidade é caótica. É desorganizada. A cidade passou por um processo de perda de raízes, porque até 1986, mais ou menos, as coisas eram mais entre as famílias daqui mesmo. Mas a partir desta época abriu-se a possibilidade de industrialização, que foi antecipada por terrenos e casas populares e trouxe um monte de gente que não tem raízes aqui. Com isso, a gente tem pequenas favelas em torno da cidade. Você vai no Vante, na Vila Angélica e percebe isso. Não sei mais que dimensão tem essa cidade. Tem uma população muito flutuante. O que some de meninos na escola que foi para Juazeiro e voltou, foi para o Paraná e voltou. A cidade está perdendo a identidade. Dá vontade de perguntar: cadê os bandeirantes daqui? Foram para Sorocaba, Itu, até em Tietê tem bandeirantes.

Você acredita que consegue “contaminar” a educação com essa injeção de ânimo?

Estou tentando. Sinto que o professor dentro do processo é um mártir. É muito difícil, a partir do momento que você vê que um professor passa por 480 alunos na semana. O culpado é toda uma circunstância que está mal posta, e não tem como apontar.

Fonte:  Revista Viu!

Comentários

Voltar