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Terça-feira, 06 de Maio de 2014
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A fada madrinha

Tinha meus 10 anos, quando fui ao cinema pela primeira vez. Eu era empregada doméstica e minha patroa me levou para assistir Branca de Neve! Ela me levou apenas por conveniência, pois ia acompanhar sua filha de 8 anos.

Chorei, me emocionei e nunca mais esqueci aquela música que a Branca de Neve canta em volta do poço, falando que um dia seria feliz! Naquela época, me sentia a própria Branca de Neve, sendo empregada doméstica no castelo da madrasta, afinal eu era apenas uma criança.

Quantos sonhos temos de quando ainda éramos crianças? Quantos sonhos ainda temos? Quantos sonhos, querido leitor, você tem?

Quantas vezes fomos humilhadas em nossa vida por pessoas que “talvez“ nem percebessem esta humilhação. Quantas vezes sofremos preconceitos seja por opção sexual, racismo, nível social, religião ou politica, destruindo todas as expectativas de realizar algum sonho em nossa vida. Recordo de muitas situações, em especial, da minha  adolescência, que causaram dores na minha alma.

Lembro de um namorado que terminou comigo após saber que eu trabalhava como empregada doméstica, outro caso foi de uma amiga que ficou envergonhada ao saber que eu trabalhava em uma fábrica e no dia seguinte não olhou mais em minha cara, afinal eles faziam parte de uma sociedade seletiva e mesmo sendo pobres como eu, tinham que preservar a imagem e não podiam andar com “qualquer um", que não fosse do mesmo nível social.

Quanta ilusão e hipocrisia! Ocultar a realidade através de uma máscara de aparência faz parte dos hipócritas, que representam e fingem comportamentos o tempo todo. Para mim, adultos infelizes e mal resolvidos na atualidade.

Hoje, consigo rir destes acontecimentos corriqueiros, daquela época, refletindo que por mais que tentasse agradar e me encaixar  no grupo, não conseguia, pois vivia em uma sociedade preconceituosa e seletiva. Ah! Caro leitor, você deve estar se perguntando:

 “Será que ela sofria com isto tudo? – Respondo: “sim, muito”.

 Aos 12 anos, sentia-me uma intrusa, forasteira em um porto que diziam que era feliz. Família pobre e pai alcoólatra. Sendo assim, teria que ralar muito para deixar minha marca no mundo. Então, o que fiz? Mergulhei nos estudos, me dediquei muito em todos os meus trabalhos. Segui o conselho da minha mãe que falava a seguinte frase: “Não importa o que você faça, faça bem feito e com amor, carinho, dedicação e responsabilidade”.

Apesar de ser pobre e ter vários problemas no dia a dia, meu pai foi um exemplo de trabalhador e humildade, minha mãe sempre ensinou compromisso, responsabilidade e nunca desistir dos nossos sonhos, e foi com meus irmãos que aprendi o verdadeiro sentido da palavra amizade.

Peço licença para compartilhar o que aconteceu comigo num dia desses. Encontrei uma fada madrinha! Podem acreditar, elas existem... Uma amiga que,  por sua vez, sem saber a importância  da história da Branca de Neve em minha infância, sugeriu que vestisse uma fantasia da princesa em uma festa. AH! Acabou realizando um sonho de 36 anos. Vesti, cantei e contei...

Minha cabeça gira em torno das lembranças e me orgulho de ter passado por tudo isso e encontrado pessoas que me ajudaram, e aquelas que mesmo de maneira negativa, também ajudaram a construir este ser humano ainda em formação que aqui está.

Hoje, eu canto com Gonzaguinha “Há quem fale que a vida da gente, é um nada no mundo... Eu só sei que confio na moça e na moça eu ponho a força da fé. Somos nós que fazemos a vida, como der ou puder ou quiser...”

E como não poderia faltar, compartilho uma história da alma, quando contada faz com as pessoas fiquem estáticas, refletindo...

 

HISTÓRIA DE GHANDI

Certa feita, Ghandi estava andando pela calçada, quando dois soldados ingleses pararam – no e disseram: pessoas como você, gente como você e da sua cor, não podem andar por essa calçada, tem que andar pela outra calçada, e Ghandi com toda sua paciência atravessou a calçada e foi para a outra calçada, mas de repente os dois soldados ingleses voltaram e disseram: esquecemos de lhe dizer uma coisa: gente como você, pessoas como você e gente da sua cor não podem andar por aquela calçada e nem por essa calçada, tem que andar pelo meio da rua, e Ghandi, com toda sua tranquilidade saiu da calçada e foi para o meio da rua, uma rua sem asfalto, toda suja e lá estava ele caminhando tranquilamente, quando novamente os dois soltados ingleses voltaram e disseram: gente como você, pessoas como você e da sua cor não podem andar por aquela calçada, nem por aquela outra calçada e nem por essa rua, tem que andar pela rua de baixo. E Ghandi com toda sua sabedoria caminhou pela rua debaixo, mas de repente lembrou-se de uma coisa e voltou, e disse para os dois soldados ingleses: é triste, triste mesmo em saber que pessoas como vocês precisam usar da dignidade do outro para se auto – afirmar na vida.

Autor desconhecido

Sonia Jaqueline da Silva Oliveira
Professora e Contadora de História

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